Na praça da cidade o assunto já não é mais o calor, nem a chuva que insiste em não cair. Nos bares, nas filas de banco, nos grupos de WhatsApp, a nova previsão do tempo é outra: como votarão cinco homens togados, a centenas de quilômetros de distância, sobre o futuro político de um Estado inteiro.
Ninguém sabe ao certo, mas todos arriscam palpite, como se fossem velhos conhecidos de infância de cada ministro. Nos cafés de Palmas, circulam análises em tom de raio‑X: quem indicou quem, em que governo, qual partido, qual doutrina.
Como se a Constituição fosse um horóscopo jurídico e cada toga carregasse um signo: garantista, punitivista, formalista, pragmático. Na mesa ao lado, alguém sussurra que “com fulano a tendência é manter”, outro rebate que “com beltrano tudo pode virar do avesso”.
E assim, entre goles de café e teorias conspiratórias, o Supremo vai se infiltrando na conversa miúda do cotidiano. Enquanto isso, nos gabinetes climatizados, advogados redigem memoriais, juntam precedentes, com algumas citações em latim.
Do lado de fora, o povo junta apenas o que tem: esperança, desconfiança e um certo cansaço de sempre ver o próprio destino decidido em gabinetes distantes. Para uns, o julgamento é a chance de corrigir distorções; para outros, uma ameaça de instabilidade.
Para todos, porém, é um lembrete: o voto que se deu nas urnas agora passa pela segunda instância da política, aquela que veste toga e fala em nome da Constituição. No interior, onde o wi‑fi falha, mas o rádio ainda reina, o noticiário mistura previsão de safra, preço do gado e escalada do STF.
O locutor anuncia os nomes dos ministros com a mesma solenidade com que antes chamava os cantores de moda de viola. Há quem escute calado, há quem troque de estação. Mas ninguém fica totalmente indiferente, porque sabe que, de alguma forma, a decisão que vier lá de Brasília vai bater, horas depois, na porteira de casa.
E assim o Tocantins vai dormindo com um olho só. De um lado, a vida que insiste em continuar: aula marcada, consulta agendada, ônibus lotado. Do outro, o país jurídico, onde uma liminar mantém, outra derrubada, e cada voto lido em plenário vira manchete e meme.
No meio desse vaivém, a sabedoria antiga da roça sussurra, sem latim e sem jurisprudência: ainda não são favas contadas. E talvez esteja aí a única certeza honesta deste momento – a de que, até o último voto, o futuro permanece em aberto, esperando, impaciente, pela próxima sessão da Segunda Turma.
Não seria mais prudente que o Ministro do STF, Nunes Marques, esperasse pela decisão da Segunda Turma? E se a decisão monocrática do ilustre ministro for modificada pela Segunda Turma?
Tocantins já não aguenta mais esse vai-e-vem!
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.















