Na calada da noite, atearam fogo nas aldeias e nas casas espirituais; abriram fogo contra povos indígenas desarmados. Eu poderia estar escrevendo sobre 1500, mas isso acontece em nossos dias, filmado e publicado para quem quiser comprovar.
Na calada da noite, invasores de terras reúnem-se como heróis descobridores, em suas tramas ardilosas de exploração e domínio. Este texto poderia ser sobre o início da colonização, mas é sobre o dia 09 de dezembro de 2025, em Brasília — mais precisamente, no Senado Federal, votando favoravelmente à PEC do Marco Temporal.
Desdenham da história, zombam da nossa memória e escarnecem da nossa inteligência. Senhoras e senhores senadores, não é 1500. Aprendemos a sua língua, entramos nas suas faculdades e dominamos o seu sistema jurídico para nele incidir.
A Constituição que Vossas Excelências não respeitam foi tecida pela diversidade do povo brasileiro, com representantes indígenas, inclusive do Tocantins. Vocês não nos darão espelhos fingindo trocá-los por nossas terras; essa mentira não cabe em nossa cosmovisão. Hoje temos uma vantagem: conhecemos bem as vossas excrescências, enquanto vocês, em tantos séculos, conhecem quase nada sobre nós.
A aprovação da tese do Marco Temporal é a anomalia inconstitucional mais aviltante deste século contra os povos originários. Depois de anos lutando pelo reconhecimento do óbvio — de que estas terras não foram descobertas, pois estávamos aqui antes de o Brasil ser Brasil —, reafirmamos: nosso marco é ancestral, essa Terra é nossa! Uma verdade incontestável, assim como é incontestável que os seus atos representam tudo, menos o interesse do povo brasileiro.
O ardil do Marco Temporal visa estabelecer um limite restritivo para a demarcação e enfraquecer o usufruto exclusivo dos nossos territórios. Essa PEC pretende que reivindiquemos apenas as terras ocupadas na data da promulgação da Constituição, ignorando que se não estávamos lá, não foi porque as “abandonamos”, mas porque fomos expulsos. A própria Constituição Cidadã reconhece que nosso direito é originário, portanto não pode ser datado.
Como ousam desconsiderar o extermínio de milhões de indígenas e as remoções forçadas que sofremos? Como conseguem defender tamanha aberração? É a evidência de que este Congresso representa o neocolonialismo, ignorando nossa existência. O objetivo é claro: explorar nossa terra e nossa gente até o último fôlego, até a última floresta, até o último centímetro de terra indígena.
São eles os responsáveis por ainda padecermos sem políticas públicas básicas que garantam dignidade ao nosso povo. Julgam-se superiores, únicos detentores de direitos. Espero que o Brasil, o Tocantins e todos os povos indígenas guardem bem o nome de cada um que votou a favor do Marco Temporal. 2026 é logo ali.
Deixo minha saudação indígena: awire!
NARUBIA WERRERIA
É líder indígena e ex-secretária dos Povos Originários e Tradicionais do Tocantins.
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