Há batalhas que terminam nos campos. Outras continuam nos símbolos.
O Haiti quis vestir a memória. Na camisa da sua seleção não havia apenas tecido, cores ou patrocinadores. Havia Vertières.
Havia a lembrança dos homens que enfrentaram um império para arrancar da história o direito de existir como povo livre. Havia o eco da batalha decisiva que abriu caminho para a primeira república negra independente do mundo.
Mas a memória encontrou um regulamento.
A imagem dos combatentes da independência precisou ser retirada do uniforme para que a seleção pudesse disputar a competição. Entendeu-se que a referência poderia ser interpretada como uma mensagem política.
A decisão foi recebida com resignação.O futebol também conhece a linguagem das sanções. Entre o orgulho e a participação, escolheu-se a participação.
Ainda assim, as perguntas permaneceram.
Quando uma luta de libertação se transforma em manifestação política? Quando a história deixa de ser memória e passa a ser ideologia? E quem decide onde termina a homenagem e começa a militância?
As instituições refugiam-se frequentemente na palavra neutralidade — limpa, equilibrada, aparentemente serena. Mas a neutralidade raramente é um terreno vazio. Muitas vezes é apenas uma fronteira desenhada por alguém.
O paradoxo surge quando certas memórias são consideradas excessivas, enquanto outras celebrações recebem espaço, aplauso e visibilidade. Nesse momento, a discussão já não é sobre futebol nem sobre uma camisa.
É sobre o poder de decidir quais histórias podem ser exibidas e quais devem permanecer dobradas no armário.
O Haiti conhece bem essa luta.
A sua história foi escrita por homens e mulheres que desafiaram uma ordem que parecia eterna. Talvez por isso Vertières continue a incomodar mais de dois séculos depois — não por ser ainda uma guerra, mas por recordar que os impérios também podem perder.
E há lembranças que, mesmo retiradas de uma camisa, permanecem costuradas na alma de um povo.
Porque regulamentos podem alterar uniformes. Não podem apagar memórias.
É nesse ponto que a controvérsia ganha outra dimensão. Se uma entidade desportiva considera que uma referência à Batalha de Vertières pode constituir uma manifestação política, surgem inevitavelmente questionamentos quando a mesma instituição presta ou apoia homenagens a líderes políticos contemporâneos.
Tomemos um exemplo frequentemente citado pelos críticos: quando um governante é apresentado como promotor da paz, da diplomacia ou da estabilidade internacional. Ainda que a intenção seja apresentada como institucional ou universal, a homenagem recai sobre uma figura política concreta, com apoiantes, adversários e decisões que dividem opiniões.
Por isso, muitos perguntariam: se recordar a Batalha de Vertières é considerado um gesto político, não seria igualmente político a FIFA homenagear uma figura como Donald Trump, caso seja reconhecido por alegadas contribuições para a paz mundial?
Os defensores dessa distinção argumentam que existe uma diferença entre uma homenagem institucional e uma mensagem exibida num uniforme durante uma competição.Os críticos respondem que a fronteira é menos nítida do que parece. Toda exaltação pública de um líder político carrega, em maior ou menor grau, um significado político.
A questão deixa então de ser apenas o que é político. Passa a ser quem possui autoridade para definir o que é político.
A régua não mede apenas distâncias. Mede memórias.
Uma batalha pela liberdade pode ser considerada política. Uma homenagem a um governante pode ser apresentada como institucional. Tudo depende da mão que segura a régua.
O Haiti quis recordar os seus mortos. Disseram-lhe que a história era política. Outros celebram os seus vivos.
Dizem-lhes que é apenas reconhecimento.
Talvez a neutralidade nem sempre seja ausência de lado. Por vezes, é apenas o lado que conseguiu convencer os demais de que não tem lado.
E a régua continua a medir. Não os factos, mas quem possui o direito de contá-los.
Afinal, a neutralidade, às vezes, não é ausência de lado. É o lado que convenceu o mundo de não ter lado.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.















