Junho, dia 27 vencida mais uma etapa de vida. Em 2026, socialmente 77 anos de idade, conforme se conta desde o dia em que nasci. No dia 27 de setembro próximo, porém, completarei 78 anos de vida biológica, considerando o tempo decorrido desde quando fui gerado até minha chegada à luz deste mundo. Já espiritualmente, não ouso estabelecer números. Talvez eu complete milhares de anos, pois há algo em nós que parece existir para além da matéria, do calendário e dos relógios.
Acredito que a idade é uma medida relativa. O corpo conta os anos de uma maneira; a sociedade, de outra; e a alma, quem sabe, de uma forma inteiramente diferente. O corpo registra as marcas do tempo: os cabelos grisalhos, os passos mais cautelosos, as lembranças que se acumulam. A sociedade registra datas, documentos, aniversários e estatísticas. A alma, entretanto, registra experiências, emoções, aprendizados e mistérios.
Quando olho para trás vejo o menino que fui, cheio de sonhos e perguntas; o jovem que acreditava que o futuro estava muito distante; o homem que enfrentou desafios, construiu projetos e sonhos, venceu alguns combates e perdeu outros; e vejo também o homem maduro que hoje contempla a vida com um olhar mais sereno, mais preocupado em compreender o mundo do que conquistá-lo.
Aprendi que a vida nos surpreende, modifica rumos, fecha portas e abre outras. Muitas vezes, aquilo que parecia uma derrota revelou-se uma lição valiosa; aquilo que julgávamos permanente mostrou-se passageiro; e aquilo que parecia pequeno transformou-se em algo grandioso na memória.
Colecionei amizades, algumas breves como uma estação do ano, outras duradouras como árvores centenárias. Cada uma delas, juntamente com minha família, ajudaram a construir a pessoa que sou hoje. Vivi despedidas. Algumas chegaram de forma silenciosa; outras deixaram feridas difíceis de cicatrizar. Perdi familiares, amigos e companheiros de caminhada. Em cada partida, uma parte da minha própria história também se foi. Contudo, descobri que o amor tem uma estranha capacidade de sobreviver às ausências. As pessoas que amamos continuam vivendo em nossas lembranças, em nossos gestos e até mesmo em nossas palavras.
Ao longo da vida, vi o mundo mudar inúmeras vezes. Presenciei transformações tecnológicas que pareciam inimagináveis quando eu era criança. Vi hábitos desaparecerem, costumes se modificarem e valores serem constantemente questionados.
O mundo de hoje é muito diferente daquele em que nasci. Ainda assim, certas coisas permanecem imutáveis: a necessidade de amar e ser amado, o desejo de encontrar sentido para a existência, a importância da amizade, da família e da fé.
Talvez seja por isso que, ao pensar em minha idade espiritual, sinto que ela ultrapassa em muito os anos registrados em minha certidão de nascimento. Há experiências que parecem ter sido vividas há séculos. Há emoções tão profundas que nos conectam a algo muito maior do que nossa existência individual. Em certos momentos, temos a impressão de que carregamos dentro de nós memórias antigas, sabedorias herdadas e uma espécie de patrimônio invisível que atravessa gerações.
Chegando a esta etapa da vida, percebo uma verdade: tenho mais histórias para contar do que tempo para contá-las. São histórias de alegrias, na maioria, e poucas de tristezas; de encontros e desencontros; de sucessos, em grande parte, e pequenos fracassos; de sonhos realizados e de sonhos que permaneceram apenas como sonhos. Histórias simples, talvez, mas que constituem o verdadeiro tesouro de uma existência.
Cada ruga guarda uma lembrança. Cada fotografia antiga abre uma porta para um tempo que não volta mais. Cada nome recordado traz consigo um universo inteiro de emoções. E quanto mais os anos avançam, mais compreendo que a riqueza da vida não está nas coisas que acumulamos, mas nas experiências que vivemos e compartilhamos.
Não sei quantos anos ainda me serão concedidos. Ninguém sabe. Mas aprendi que o valor da vida não se mede pela quantidade de tempo que temos pela frente, e sim pela intensidade com que vivemos o tempo que nos foi dado. Enquanto houver um amanhecer a contemplar, uma conversa a desfrutar, um livro a ler, uma lembrança a revisitar ou uma história a contar, a vida continuará oferecendo razões para ser celebrada.
Por isso, ao completar socialmente 77 anos, biologicamente 78 e espiritualmente uma idade que se perde na imensidão do tempo, sinto-me profundamente grato. Grato pelos caminhos percorridos, pelas pessoas que encontrei, pelos desafios que me fortaleceram e pelas bênçãos que recebi. Grato, sobretudo, pelo privilégio de ter vivido o suficiente para compreender que a existência humana é muito mais do que uma simples contagem de anos.
E se hoje tenho mais histórias para contar do que tempo para contá-las, isso não me entristece. Ao contrário. Significa que vivi. Significa que a vida foi generosa comigo. Significa que cada ano acrescentou um novo capítulo a essa narrativa que ainda continua sendo escrita. E enquanto houver voz, memória e coração, continuarei compartilhando essas histórias, porque são elas que dão sentido à passagem do homem pela Terra e que permitem que uma parte de nós permaneça viva muito depois de concluída a nossa jornada.
“Quem tem ouvidos que ouça, quem tem olhos que veja!”
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
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