As sociedades não desabam por causa de tempestades que vêm de fora; elas desabam quando o solo que as sustenta se desfaz sob os pés de quem prometeu firmá-lo. Há um momento, discreto e traiçoeiro, em que a estrutura começa a ranger: não é o ruído das bombas nem o tremor das fronteiras, mas o sussurro constante das decisões que deixam de ser tomadas.
Lembro-me de praças onde as conversas longas costumavam nascer do encontro de olhares. Hoje, as praças permanecem cheias — de pessoas, de celulares, de anúncios — e vazias do essencial: da coragem de falar, da coragem de ouvir e da coragem de responder quando o que está em jogo é a verdade.
Liderança não é fabricar slogans nem cercar palácios de elogios.
Liderança é enfrentar o buraco quando ele surge no meio da rua; é chamar os pedreiros, medir a profundidade, dizer a verdade sobre o risco e trabalhar a madrugada inteira até que a passagem esteja segura outra vez.
Os pilares de uma ordem social — instituições, leis, educação e memória — não são estátuas que sustentam o mundo por sua beleza. São alicerces discretos, feitos de rotina, disciplina e, sobretudo, responsabilidade.Exigem atenção constante. Reformas que transformam exceções em regra, tribunais que vacilam diante do poder e escolas que se contentam em ensinar apenas a memorização corroem, lentamente, a confiança coletiva.
Quando a confiança escoa, os ressentimentos se acumulam; e quando os ressentimentos encontram portas abertas, a violência entra como água em um porão esquecido.
O que chamo de fraqueza não é apenas fraqueza física ou política. É uma fraqueza moral: o medo de dizer não a interesses instalados, o cálculo que antepõe a sobrevivência política à justiça e a covardia de transformar princípios em mera retórica.
Há líderes que se escondem atrás de discursos grandiosos enquanto assinam a sentença de sua própria autoridade por meio de pequenos ajustes cotidianos que enfraquecem as instituições. Há também a fraqueza que nasce na própria sociedade: cidadãos que naturalizam abusos, que trocam vigilância por indiferença e que medem a coragem pela distância segura em relação ao conflito.
Não é preciso espetáculo para perceber o colapso em andamento. Ele vem em parcelas: um tribunal que evita julgar, uma universidade que reduz o pensamento crítico à técnica, uma imprensa que prefere aplausos à investigação. Em cada recuo, um pedaço da confiança se desprende. E, quando chega a hora de reconstruir, faltam materiais — e faltam pessoas dispostas ao trabalho árduo da restauração.
Há, porém, uma ironia amarga em muitas democracias: decisões tomadas pelos parlamentos atingem justamente os trabalhadores e os mais vulneráveis, aqueles que sustentam silenciosamente o peso da sociedade.
E, ainda assim, os mais prejudicados permanecem, muitas vezes, impávidos e serenos, como se o desgaste de seus direitos fosse um fenômeno distante. Não percebem que a erosão das garantias coletivas começa de forma discreta, em pequenas concessões, em silenciosas renúncias e em indiferenças cotidianas.
À medida que se avizinham novas eleições para deputados e senadores, essa reflexão ganha ainda maior importância.
As urnas também são oficinas de construção — ou de demolição — da vida pública. Os mais vulneráveis, justamente os que mais dependem de políticas justas e de instituições fortes, têm diante de si uma responsabilidade inadiável: votar com memória, com discernimento e com a compreensão de que cada mandato concedido pode fortalecer as pontes da democracia ou ampliar as suas fissuras.
Votar é mais do que exercer um direito; é assumir uma responsabilidade histórica. O Parlamento produz leis, define prioridades, estabelece direitos e, por vezes, retira garantias que pareciam consolidadas. Quem escolhe seus representantes sem atenção ao passado, às ideias e aos compromissos de cada candidato acaba, muitas vezes, entregando o próprio destino à improvisação ou ao oportunismo.
Não basta, porém, eleger um presidente que proclame defender os interesses mais legítimos dos desfavorecidos. Em uma democracia, governar é uma tarefa compartilhada, e o destino das políticas públicas também se decide no Parlamento.É igualmente necessário escolher deputados e senadores que compreendam as angústias e as necessidades daqueles que representam e que estejam dispostos a defender, com independência e compromisso, os interesses do povo. As leis que protegem o trabalho, ampliam direitos ou asseguram a dignidade dos mais vulneráveis nascem, são alteradas ou desaparecem pelas mãos daqueles que ocupam as cadeiras do Congresso.
A história, entretanto, reserva espaço para outra cena: a do construtor que aceita o trabalho difícil. Resistência não é apenas protesto nas ruas; é também a paciência de restaurar livros, de ensinar os jovens a pensar, de aplicar as leis com igual firmeza para todos e de recusar os favores que corroem o interesse público.
A coragem que sustenta uma sociedade aparece menos nos discursos inflamados do que nas decisões que ninguém aplaude: na nomeação justa, na auditoria independente, na defesa pública das minorias e no compromisso silencioso com a integridade.
Se quisermos evitar nossa própria ruína, é preciso reimaginar a liderança como uma prática diária de cuidado e coragem. As sociedades não são fortalezas inabaláveis; são pontes que exigem manutenção permanente.
Nenhuma ponte desaba de uma vez. Ela cede aos poucos, enquanto os que a atravessam acreditam que o próximo passo ainda será seguro. E enquanto houver gente disposta a pegar as ferramentas, a tapar as fendas, a enfrentar a chuva e a escolher conscientemente aqueles que irão legislar em seu nome, ainda haverá esperança de atravessar a ponte sem que ela venha a ruir. Porque os muros das democracias raramente caem de um só golpe.
Eles se enfraquecem, pedra por pedra, quando o povo delega seu futuro sem atenção, sem memória e sem vigilância. E também se erguem, tijolo por tijolo, quando os cidadãos compreendem que cada voto é uma ferramenta de construção da própria história.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.













