Há momentos em que a política deixa de ser mera conta de resultados e estratégia, e se aproxima daquilo que a história tem de mais insistente: a capacidade de fazer regressar velhas forças a novas encruzilhadas.
No Tocantins, o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à pré-candidatura de Laurez Moreira pertence a esse tipo de instante, quando a conjuntura ganha a dimensão de símbolo. Não é apenas uma declaração; é um gesto que reorganiza o cenário, como quem move uma peça única e obriga o tabuleiro inteiro a repensar a partida.
Lula carrega no estado um capital político que não é de agora nem de ocasião. Nunca perdeu uma eleição presidencial aqui — e esse dado, por si só, diz muito sobre a permanência do seu nome no imaginário e na memória eleitoral do povo tocantinense.
Mas a política, essa velha senhora de passos imprevisíveis, raramente se contenta com uma única força. Ao redor de Laurez surge também a presença de Kátia Abreu, figura que divide opiniões e jamais passa despercebida. Há quem entre para a história pela força do consenso; há quem entre pela intensidade da marca que deixa. Kátia pertence a este segundo grupo.
Goste‑se ou não de suas posições, é difícil negar sua musculatura política, a capacidade de articulação e o trânsito que construiu entre diferentes setores sociais e econômicos.
Se a sua participação nessa construção vier a consolidar‑se, o que se desenha não é apenas uma aliança eleitoral. Desenha‑se a tentativa de erguer uma frente mais ampla, mais densa e apta a dialogar com segmentos diversos do Tocantins: produtores rurais, setores urbanos em expansão, lideranças tradicionais e emergentes. Isso, em tempos de polarização e empobrecimento do debate público, está longe de ser detalhe.Significa disputar — e talvez redefinir — a agenda local: desenvolvimento, uso da terra, infraestrutura e a presença do Estado em áreas que variam do cerrado aos centros administrativos.
É claro que eleições não se vencem só com nomes ilustres. O povo continua a ter a última palavra, e isso precisa ser lembrado sem adornos.
Ainda assim, seria ingenuidade ignorar o efeito político de uma convergência dessa natureza. Quando Lula se aproxima de uma candidatura e Kátia passa a orbitar o mesmo campo, algo inevitavelmente se desloca.
A campanha deixa de ser mera soma de ambições e passa a apresentar-se como projeto de maior envergadura, capaz de ativar memórias eleitorais, redes e expectativas por políticas públicas tangíveis.
O Tocantins, que tantas vezes viu alianças nascerem e morrer ao sabor dos ventos, assiste agora a uma composição que reúne memória, influência e cálculo.
A disputa continua aberta, mas já não é a mesma. Há apoios que somam votos; e há apoios que, pela força da história que carregam, têm o poder de redesenhar horizontes e reacender a memória coletiva de um estado inteiro.
No fim das contas, o tabuleiro se move. Resta observar quais peças, além dessas, farão o jogo: lideranças regionais, prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, movimentos sociais, juventude urbana e o setor produtivo.
E, sobretudo, resta saber se essa movimentação convergirá em projeto concreto — políticas, compromissos e um discurso capaz de traduzir sinais em mudanças reais — ou se ficará no campo das articulações simbólicas.
A política tocantinense entrou em nova partida; que vença a que apresentar mais do que promessas: propostas que se possam, de fato, medir no cotidiano das cidades e do campo.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.















