Em tempos sombrios, para recordar a expressão de Hannah Arendt, torna-se necessário voltar a perguntar pelo sentido da vida. Quando o medo, a violência, a insegurança e a incerteza parecem ocupar o horizonte da existência, pensar a vida deixa de ser um exercício puramente teórico para tornar-se uma necessidade profundamente humana. Viver não é um mero fato biológico nem a simples sucessão dos dias. Viver é acontecimento, experiência, aventura. E é precisamente porque viver é aventura que viver é perigoso. O perigo não constitui um desvio da existência; ele pertence à própria condição humana. É ele que desafia, transforma e, muitas vezes, confere sentido à jornada.
As palavras que dão título a este ensaio não são minhas. Elas ecoam repetidamente em Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, e condensam uma das mais profundas compreensões já formuladas acerca da existência humana: viver é perigoso. Talvez nenhum outro escritor brasileiro tenha decifrado com tamanha sensibilidade o enigma da vida. Em outra tradição intelectual, Georges Canguilhem, médico e filósofo francês, também compreendeu que a vida somente se revela em sua verdade quando enfrentada como experiência, aventura e risco.
Dois pensadores, duas linguagens distintas. De um lado, um diplomata e literato brasileiro; de outro, um médico e filósofo francês. Ambos, porém, movidos pelo mesmo impulso humanista, voltaram-se para o mistério da existência a fim de compreendê-la a partir dela própria. Não buscaram explicar a vida por conceitos abstratos ou sistemas fechados; preferiram segui-la em seu movimento, em sua imprevisibilidade e em sua capacidade permanente de surpreender.
Em seu belíssimo ensaio L’expérience et l’aventure, Canguilhem afirma que o homem só pode descobrir-se verdadeiramente como homem diante do perigo. A existência humana não floresce na segurança absoluta, mas na experiência de ultrapassar limites, de abandonar as margens conhecidas e lançar-se ao desconhecido. A aventura não é um acidente da vida; ela constitui a própria condição da existência. Viver é sempre expor-se ao inesperado.
Embora pertençam a universos culturais distintos, é impossível não perceber uma profunda afinidade entre Canguilhem e Guimarães Rosa. No filósofo francês, o mar simboliza o espaço da aventura, onde o homem se arrisca e, justamente por isso, constitui a si mesmo. Em Grande sertão: veredas, Rosa percorre os caminhos do sertão para desvendar o humano em sua forma mais radical. As veredas tornam-se metáforas da própria existência: caminhos estreitos, sinuosos, incertos, que exigem discernimento, coragem e disposição para enfrentar o desconhecido.A vida é feita de caminhos. Contudo, os caminhos que conduzem à plenitude raramente são os mais seguros. São precisamente os mais difíceis, aqueles em que não há garantias, que revelam a grandeza da condição humana. As veredas de Rosa e o mar de Canguilhem convergem para uma mesma verdade: somente quem aceita o risco da existência pode experimentar a intensidade de viver.
O perigo constitui, portanto, o ponto de encontro entre esses dois grandes humanistas. Viver é experiência; viver é aventura; viver é aceitar a incerteza que acompanha toda escolha. Não se vive apenas para ser útil, produtivo ou funcional. A vida exige enfrentamento, compromisso, resistência e protesto contra tudo aquilo que reduz o homem à mera sobrevivência ou o transforma em simples número.
Condenado à aventura, o ser humano vive permanentemente exposto ao perigo. Em qualquer momento, como sugere Canguilhem, já não é o homem quem encurrala a vida, mas é a própria vida que o interpela, o desafia e o obriga continuamente a reinventar-se. É exatamente nesse ponto que ressoam, com toda a sua força filosófica, as palavras de Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso.” E, talvez, o próprio Rosa ofereça a resposta para esse perigo quando escreve: “O que a vida quer da gente é coragem.”
JAIRO BARBOSA MOREIRA
É professor de Filosofia -IFTO/GURUPI, doutor em Educação/UFG e clero diocesano de Cristalândia.













