A falta de infraestrutura e a superlotação do Centro de Fauna do Tocantins (Cefau) — única unidade de acolhimento do estado — estão sufocando o resgate de animais silvestres e forçando ONGs e clínicas particulares a assumirem a responsabilidade técnica sem fomento público.
O Tocantins, estado mais jovem da federação, orgulha-se de ocupar uma posição geográfica privilegiada: uma rica zona de transição entre o Cerrado e a Amazônia. Contudo, por trás da exuberância de suas dez Áreas de Proteção Ambiental e de seus diversos parques estaduais, esconde-se uma realidade incômoda de omissão e descaso estatal. O debate contemporâneo sobre a Saúde Única e o bem-estar animal esbarra, em solo tocantinense, em uma crônica e inaceitável falta de infraestrutura pública para o acolhimento da fauna nativa. No coração do Brasil, a preservação ambiental parece não passar de um discurso de fachada.
Atualmente, o estado simplesmente não possui zoológicos tradicionais ou centros robustos de reabilitação abertos ao público. Toda a imensa demanda de resgates, impulsionada por recordes de desmatamento, incêndios florestais e pelo alarmante índice de atropelamentos nas rodovias gerado pela inércia do DNIT e do DER-TO, estrangula uma única estrutura: o Centro de Fauna do Tocantins (Cefau), em Palmas. Operando em uma área limitada e no topo de sua capacidade técnica, o Cefau atua em um cenário de “enxugar gelo”. O órgão faz um trabalho heróico com o que tem, mas é uma andorinha só tentando carregar o ecossistema do estado nas costas.
A ausência de Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetras) descentralizados pelo interior escancara a falta de vontade política do governo estadual. Na falta de braços operacionais públicos, a responsabilidade técnica acaba terceirizada. O próprio Cefau precisa recorrer a acordos com hospitais universitários, e não raro a fauna silvestre ferida depende da caridade de clínicas veterinárias particulares voltadas a cães e gatos, que carecem de especialização para lidar com biomas complexos. Enquanto isso, o terceiro setor, representado por iniciativas como o Instituto Cerrado em Araguaína, tenta absorver animais severamente mutilados e inaptos à soltura, transformando espaços em santuários biocêntricos sem o devido fomento governamental.
A raiz do problema também se alimenta de um debate público frequentemente distorcido por estigmas digitais. Impulsionada por um “efeito manada” nas redes sociais, parte da população defende uma utopia ingênua: a de que todos os animais devem viver livres, sem qualquer interferência humana. Ignora-se, com isso, que a degradação antropogênica já destruiu essa pureza. Sem zoológicos modernos e santuários estruturados, focados em conservação, pesquisa e educação ambiental, o fluxo de destinação de espécimes mutilados colapsa. O destino inevitável dessas criaturas, hoje, flerta com a eutanásia em massa por pura falta de recintos e insumos.
Para que o Tocantins faça jus ao título de “coração do Brasil”, a Secretaria do Meio Ambiente precisa acordar do berço esplêndido e formular um Plano de Conservação urgente. Isso exige descentralizar o atendimento à fauna, aportar recursos financeiros reais
e criar incentivos fiscais para bioparques privados e ONGs de excelência. Preservar exige superar discursos rasos e investir em estruturas tangíveis. A omissão continuada não é apenas incompetência administrativa; é a garantia de que o patrimônio biológico tocantinense continuará sendo atropelado pela negligência estatal.
GIULLIA ALMEIDA
É gurupiense, estudante de veterinária transferida da Universidade Federal do Norte do Tocantins para a Universidade de Brasília, dedica sua carreira a traduzir a complexidade da veterinária de animais silvestres em histórias acessíveis. Com passagens por Hospitais veterinários públicos, ONG ‘s de proteção animal e clínicas particulares, usa o jornalismo como ferramenta para evidenciar a inércia sobre a conservação da fauna Tocantinense e discrepância de investimentos interestaduais sobre a saúde animal. Atualmente, encontrou no jornalismo a voz que angústias profissionais antigas e pautas importantíssimas precisavam para serem notabilizadas.
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