“Enquanto Pequim planeja a próxima década, cabe ao Tocantins decidir se continuará exportando grãos ou passará a exportar valor.”
As mudanças que definirão o futuro da economia tocantinense talvez não estejam sendo decididas em Brasília, tampouco em Palmas, mas em Pequim. A cada cinco anos, a China publica seu Plano Quinquenal, documento que estabelece as prioridades econômicas, tecnológicas, energéticas e sociais do país pelas próximas décadas. Mais do que um planejamento interno, esse instrumento orienta investimentos, políticas industriais e estratégias de longo prazo que reverberam em mercados de todos os continentes, inclusive naquele pedaço do Cerrado brasileiro conhecido como Tocantins.
O 15º Plano Quinquenal (2026-2030) deixa clara uma prioridade que deveria interessar diretamente ao Brasil, garantir a segurança alimentar de uma população superior a 1,4 bilhão de pessoas, reduzindo a exposição a fornecedores externos. Para isso, Pequim aposta em três frentes simultâneas: elevar a própria produtividade agrícola, fortalecer a indústria nacional de sementes e insumos, e diversificar de onde comprar o que ainda precisa importar. É nessa terceira frente, a da diversificação, que o Tocantins deixa de ser espectador e passa a ser parte interessada.
Um estado que virou peça de tabuleiro
Nas últimas duas décadas, o Brasil se consolidou como um dos principais celeiros da China. Soja, milho, carne bovina, commodities que deixaram de ser apenas produtos agrícolas para se tornar moeda de uma relação geopolítica. No Tocantins, essa integração foi particularmente intensa. No coração do MATOPIBA, impulsionado pelo avanço tecnológico no Cerrado, pela Ferrovia Norte-Sul e pela proximidade dos portos do Arco Norte, o estado deixou de ser periferia agrícola para virar protagonista de uma das fronteiras mais produtivas do planeta.
Essa trajetória trouxe prosperidade real, não é justo negá-la. Exportações ampliadas, comércio regional aquecido, investimento em logística. Mas o mesmo processo que gerou riqueza também gerou dependência, e dependência de um único modelo, o de exportar commodities com baixíssimo grau de industrialização. É essa dependência, mais do que qualquer decisão tomada em Pequim, a verdadeira vulnerabilidade do Tocantins.
O erro de diagnóstico mais comum
Aqui mora o primeiro ponto cego do debate público sobre o tema, tratar a China como ameaça. Não é. A hipótese de a China deixar de comprar do Brasil é remota, o país asiático continuará, por muitos anos, entre os maiores importadores de alimentos do planeta. O risco real é outro, mais silencioso e mais difícil de perceber, a estratégia chinesa de reduzir riscos diversificando fornecedores, com investimentos agrícolas na África, novos contratos na América Central e na Ásia, e o fortalecimento da própria produção interna.
O efeito prático não é o fim das exportações brasileiras, é a erosão gradual do nosso poder de barganha. A soja tocantinense deixar de ser recurso quase insubstituível para virar mais uma opção entre várias, disputando espaço, pressionando preço, estreitando margem. Não é uma crise anunciada. É um lento aperto, do tipo que só se percebe quando já perdeu terreno.
Geografia da vulnerabilidade: Porto Nacional e PalmasEsse aperto não chega igual a todo o estado. Municípios fortemente especializados em soja, milho e pecuária ficam mais expostos a ciclos de preço internacional sobre os quais não têm nenhuma influência. Porto Nacional tem a chance de transformar sua posição logística privilegiada em vantagem real, mas só se deixar de ser corredor de escoamento e passar a ser polo de processamento, atraindo agroindústria de verdade, não apenas armazéns. Palmas, protegida pela diversificação de serviços, comércio e administração pública, tende a sentir menos o choque, o que é, em si, uma lição, cidades e estados que dependem de um único setor pagam um preço que os diversificados não pagam.
A pergunta que ninguém quer fazer em voz alta
A pergunta relevante deixou de ser “quanto produzir?”. Produzir, o Tocantins já sabe fazer, e faz bem. A pergunta incômoda é “quanto da riqueza que produzimos fica aqui?”. E a resposta, hoje, é desconfortável, pouca.
Exportamos soja em grão quando poderíamos exportar óleo refinado, farelo de alta proteína, biodiesel, combustível sustentável de aviação e ingredientes industriais.
Exportamos milho que poderia virar etanol, amido, ração especializada. Exportamos boi vivo ou carcaça quando poderíamos processar, curtir couro, industrializar derivados. Cada elo que perdemos nessa cadeia é um emprego mais qualificado que não se cria aqui, um imposto que não se arrecada aqui, uma tecnologia que se desenvolve em outro lugar. Não é exagero dizer que exportamos, junto com a soja, o próprio futuro industrial do estado.
O contra-argumento que precisa ser enfrentado
É justo, neste ponto, dar voz ao ceticismo. Industrializar não é trivial. Agroindústria exige energia confiável e barata, capital paciente, escala de mercado consumidor, mão de obra qualificada e, sobretudo, tempo, o tipo de tempo que ciclos eleitorais de quatro anos raramente respeitam. Regiões que tentaram encurtar esse caminho por decreto, sem base tecnológica e institucional, frequentemente erraram a mão, construindo plantas subutilizadas ou dependentes de subsídio permanente. Ignorar esse risco seria ingenuidade equivalente à de ignorar a dependência das commodities.
A resposta a esse ceticismo não é abandonar a ambição industrial, é levá-la a sério o suficiente para planejar direito. Isso significa priorizar cadeias em que o Tocantins já tem vantagem comparativa clara, como processamento de soja e biocombustíveis, antes de sonhar com indústrias mais distantes da vocação regional. Significa também aceitar que parte do capital e da tecnologia inicial virá de fora, o que não é fracasso, é como praticamente toda industrialização tardia no mundo começou.
Quatro frentes, um único objetivo
Ainda assim, agroindustrializar não basta sozinho. O Tocantins precisa de uma estratégia com pelo menos quatro frentes complementares. Agregar valor à produção agropecuária, atraindo processamento e refino para dentro do estado. Diversificar mercados, reduzindo a dependência chinesa por meio de relações comerciais mais fortes com Índia, Sudeste Asiático, Oriente Médio e Norte da África. Consolidar-se como polo regional, abastecendo Norte, Nordeste e Centro-Oeste com produto industrializado, não matéria-prima bruta. E investir em bioeconomia, transformando biodiversidade do Cerrado, biomassa e resíduos agrícolas em biocombustíveis, bioplásticos, fertilizantes biológicos e materiais de alto valor, um mercado ainda pequeno hoje, do tamanho que a soja tinha há trinta anos.Nenhuma dessas frentes se resolve por decreto ou em um único mandato. Exige planejamento de longo prazo, estabilidade institucional, coordenação real entre governo, setor produtivo, universidades e centros de pesquisa, e, antes de tudo, gente formada, engenheiros, técnicos agroindustriais, pesquisadores capazes de sustentar esse novo ciclo. Não se trata de plantar mais. Trata-se de decidir, finalmente, o que fazer com o que já plantamos.
O verdadeiro adversário mora aqui
Ao contrário do que o discurso mais fácil sugere, a maior ameaça ao agronegócio tocantinense não está na África, nem na estratégia chinesa de diversificar fornecedores. Ambas são sintomas de um mundo que se reorganiza, não vilões de uma história de vitimização. O verdadeiro risco é interno, permanecermos presos, por comodidade ou por falta de visão de longo prazo, à condição histórica de exportadores de matéria-prima, deixando que a maior parte da riqueza gerada em nosso território seja capturada em outras etapas da cadeia, em outros estados, em outros países.
Enfim, o Plano Quinquenal da China não é apenas um documento de política econômica estrangeira. É um espelho incômodo. Enquanto os chineses planejam metodicamente a próxima década, o Tocantins ainda debate o presente. A pergunta que fica não é retórica, é urgente, continuaremos exportando apenas grãos, ou passaremos, finalmente, a exportar também inteligência, tecnologia e produtos de maior valor agregado?
Essa é, talvez, a decisão econômica mais importante para o futuro do Tocantins. E, como todo bom planejamento quinquenal ensina, o tempo para respondê-la não começa amanhã. Já começou.
FRANCISCO VIANA CRUZ
É doutor em Economia e professor do IFTO
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