Todos nascidos no interior, temos um Córrego que um dia foi nosso companheiro. No meu caso e de muitos outros conterrâneos, era o Córrego Getúlio que atravessava, sem fazer algazarra, uma parte de Dianópolis, Sudeste do Tocantins, nossa terra natal.
Nascia num poço quase no perímetro urbano. Corria ali, bem no meio das ruas, sem pedir permissão a ninguém. Era daqueles lugares que parecem ter nascido ao mesmo tempo que a gente e tão natural quanto o sol da manhã que dourava as pedras, as flores e o canto dos passarinhos que se escondiam no mato das margens adornado pelos belos voos dos beija-flores.
Para os adultos, talvez fosse apenas um córrego estreito, um fiapo de água. Mas para nós, crianças curiosas, ele era reino, estrada, mistério e aventura. Ali aprendíamos o que os livros ainda não sabiam ensinar. A água fria era quem guiava as lições mais importantes: coragem, amizade, equilíbrio, imaginação.
Lembro-me das pequenas represas improvisadas, erguidas por mãos inocentes que acreditavam na grandiosidade do que construíam. Pedras cuidadosamente empilhadas, barro amassado com os pés, pedaços de madeira roubados do acaso… e pronto: estava feito o açude perfeito para nossas grandes aventuras. Era ali que aprendíamos a nadar, meio boiando, meio lutando contra a correnteza como quem descobre, pela primeira vez, o tamanho da própria força.
E havia aquela biquinha. Ah, a biquinha! Ninguém sabia ao certo de onde vinha, mas todos confiavam que ela nunca nos faltaria. Escorria com paciência, como se tivesse todo tempo do mundo. Quando caía sobre nossas costas, lavava o calor dos dias quentes e fazia nascer gargalhadas leves. Era um banho simples, mas para nós tinha o gosto da melhor água do planeta.
E o córrego sabia guardar segredos. Sabia do primeiro susto de quem afunda e volta à tona com o coração disparado. Sabia das amizades que nasciam sem explicação, da cumplicidade silenciosa. Sabia dos devaneios e pensamentos que navegavam rumo a destinos inventados. Era testemunha de tudo e fazia questão de manter em silêncio cada aventura.
Mas vieram os homens com seus interesses de adultos, com suas máquinas especializadas em soterrar o leito de águas cristalinas e nossos sonhos. A cidade cresceu se expandiu de forma que ficou apertada para aquele riacho. Disseram que era preciso escondê-lo para que o progresso pudesse passar. E cobriram sua voz com entulhos e terra.
As infâncias, que tantas vezes correram junto com aquelas águas, ficaram sem onde repousar.
Hoje, quando volto em minha terra natal, as ruas parecem estreitas, o contraste com as larguras que meus olhos de menino as viam…Agora, sérias demais, esquecidas demais do que havia sob seus pés. Caminho por alguns locais tentando ouvir o que um dia foi tão claro: o murmúrio da água deslizando pelas pedras, o bater de asas de um passarinho que fugia do alvoroço, o riso espontâneo de crianças que já nem se reconhecem no espelho do tempo.
Mas se escuto com o coração e só com ele, ainda consigo sentir aquelas águas pulsando ali embaixo. Elas nunca foram embora de verdade. Apenas se esconderam do olhar interesseiro dos adultos. Sob a terra, elas guardam nossas aventuras. Guardam nossas manhãs de sol, nossos verões inteiros. Guardam o menino que fomos e que insiste em sobreviver.
O progresso pode ter coberto o córrego, mas não foi capaz de soterrar o que ele significava. Porque certas águas, mesmo caladas, continuam correndo dentro da gente.
E o Córrego e a Biquinha, esses ainda carregam, pacientemente, as infâncias que jamais serão esquecidas.
“Quem tem ouvidos que ouça, quem tem olhos que veja!”
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
[email protected]














