Palmas nasceu em um cerrado que, até então, guardava o silêncio de séculos. Não assistimos ao parto, mas em 20 de maio de 1990, no dia do seu primeiro aniversário, estávamos aqui, em um exercício de coragem, com uma boa pitada de ousadia e uma imensa sede de realização pessoal e profissional.
Nosso microssistema era formado de um casal, três crianças pequenas e um amigo. Todos chegamos e fomos envoltos em uma poeira que tingia a roupa e trazia um suor que não secava nunca. O Palacinho sediou a festa, que contou até com a presença do então Presidente da República. Os convidados eram inúmeros, vindos de todos os lugares. Uns ficaram após a comemoração; outros se foram apressados, assustados com as construções que surgiam improvisadas na Tabolândia, precursoras das Secretarias. Profetizaram – erroneamente – que Palmas seria um grande acampamento de garimpeiros, sem minérios.
O aniversário comemorado com rojões pipocando no sol a pino, e a brasa incandescente sob um enorme varal de carnes a serem servidas indistintamente, criavam um cenário bem peculiar aos nossos olhos. Éramos estrangeiros em nosso próprio país, buscando uma identidade nova, experimentando um novo jeito de ver e sentir, o que exigia a cada minuto que revíssemos todos os conceitos e preconceitos.
O cerrado, tendo ao fundo a Serra do Lajeado, imponente e azulada, indicava o desafio físico de quem precisaria domar o espaço e acreditar em uma cidade que cresceria entre ela e o Rio Tocantins, erguida por todos os que aceitaram trocar suas raízes antigas pela promessa de florescer em um chão virgem, crendo em um amanhã que ainda estava sendo inventado.
No meio de tantas questões postas, sussurrou aos nossos ouvidos uma voz de comando e ternura do tio Inácio. Ele sempre carregou nos olhos o brilho de quem viu Brasília ser erguida do nada, pois lá também fora pioneiro. (Era um alento perceber que havia um precedente de loucura na família!).
O conselho dele, dias antes na nossa partida, soava como um verdadeiro mantra: “vão com o corpo e com o espírito; não comparem Palmas a nenhum outro lugar e busquem na cidade o que ela tem a oferecer por si só”. Sábio homem! Sabia que comparar seria o primeiro passo para o desânimo; era preciso olhar para o cerrado sem buscar o que ficou para trás, mas com a plenitude da entrega de construir algo que se iniciava.
Seguimos o conselho dele e esvaziamos a alma, deixando que Palmas escrevesse em nós a sua própria história, com toda dureza e beleza rústica. Tudo era novidade: piqueniques no Córrego Brejo Comprido, que cruza o hoje Parque Cesamar; a aventura de abastecer o carro no único posto de combustível, em Taquaralto; usufruir do primeiro acampamento organizado em barracas de palha na genuína Praia da Graciosa, atualmente submersa; espantar as vacas que soltas ao léu devoravam as nossas mudas; andar à noite pela 51, rumo ao pit dog, tendo como única fonte de iluminação disponível uma lanterna; confundir lobo guará com cachorro faminto e trancar todas as portas…
Para essa odisseia, porém, não faltaram os profetas do caos. O coro dos que ficaram no litoral e no Planalto Central era de um pessimismo quase folclórico. Com a sabedoria de quem desconhece tudo, muitos amigos e parentes tentaram nos ancorar no medo. Diziam, com uma certeza cômica, que seríamos acometidos por doenças exóticas e falavam em febre amarela, azul, cor de rosa… Idealizaram um portfólio de pestes, fruto da imaginação de quem nunca cruzara o Paralelo 13. O alerta dado era quase apocalíptico: seríamos devorados por selvagens, tragados em uma terra sem lei ou vítimas de qualquer outra sandice que o temor constrói.
Para eles, nossa partida não era um projeto de vida, era um surto. Não entendiam que a “loucura” herdada daquele tio era, na verdade, uma visão clara da realidade. Enquanto eles se perdiam em seus próprios devaneios, nós seguimos o conselho do veterano. Fechamos os ouvidos para as sandices e ficamos firmes, em corpo e espírito, sabendo que o maior risco era passar a vida inteira no conforto do conhecido.
Diante disso, as matriarcas cearenses tramaram uma inspeção in loco e a mais destemida delas – a minha – pousou em Miracema, a bordo de um pequeno avião turboélice da extinta Passaredo. Desembarcou com aquela fleuma impressionante que as nordestinas possuem, mesmo após ter visto um homem de bicicleta espantar os animais da pista para a aeronave poder aterrissar. Após a revista da “tropa”, percebemos um certo alívio dela ao constatar a integridade física de todos, principalmente dos netos. Nossa sanidade mental permaneceu em avaliação contínua, monitorada até o dia em que ela também foi contaminada pelo vírus tocantinense, estando agora literalmente eternizada nas cinzas lançadas no Rio Araguaia.
Hoje, quando Palmas está prestes a fazer 37 anos, olhamos para as largas avenidas, os prédios e o contorno das árvores que vimos crescer. Percebemos que aquela “loucura” era pura lucidez. As doenças inusitadas nunca vieram; em seu lugar, fomos todos tomados por uma febre de esperança e de um desejo de fincar os pés em um chão improvável. Vencemos o medo e descobrimos que a natureza não nos devora quando é respeitada.
Palmas não se tornou inóspita, mas sim o lugar seguro de quem teve a audácia de não a comparar. Todos nós pioneiros fomos arquitetos de um destino que poucos aprovavam, mas que o tempo – esse senhor da vida – tratou de dar razão. O corpo e o espírito, como aconselhou o tio visionário, encontraram aqui um lugar para viver e sonhar, com muitas histórias para contar.
ROSANNA MEDEIROS FERREIRA ALBUQUERQUE
É procuradora do Estado aposentada.











