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TEMPO REAL / Moro se mostrou péssimo em cálculo político

Cleber Toledo por Cleber Toledo
25/04/2020 às 10:53
em Política
Tempo de leitura: 5 minutos
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TEMPO REAL / Moro se mostrou péssimo em cálculo político

Presidente Bolsonaro com seu ex-ministro Sérgio Moro (Foto: ABr)

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Ao jogar fora seus 22 a anos de magistratura e emprestar sua credibilidade a um presidente instável, um ex-deputado federal que conviveu — e muito bem, obrigado — por 28 anos com o que chamou até semana passada de “velha política” e apoiou os governos do PT enquanto foi lhe foi interessante, o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro demonstrou que é péssimo de cálculo político. Tudo que vi nesse um ano e quatro meses de governo só me confirma a impressão que tive quando Moro anunciou ter aceitado o convite de Bolsonaro para assumir o cargo: foi um erro absurdo do ex-juiz federal, que tem relevantes serviços prestados ao Brasil ao contribuir para mandar para a cadeia os maiores ladrões de recursos públicos da história da República — entre eles, um ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva.

[bs-quote quote=”Conforme o cerco se fechava ao filho do presidente, mais Moro se tornava uma peça indesejável que precisava ser eliminada. Agora já não é só um filho atolado no lamaçal, uma vez que o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o vereador do Rio Carlos Bolsonaro estão encurralados por suas peripécias no campo das fakes news” style=”default” align=”right” author_name=”CLEBER TOLEDO” author_job=”É jornalista e editor da Coluna do CT” author_avatar=”https://clebertoledo.com.br/wp-content/uploads/2019/09/CT-trabalhado-180.jpeg”][/bs-quote]

Desde aquela época se ouve três teses sobre os motivos que teriam levado Moro a aceitar o convite de Bolsonaro: promessa de vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), carta branca para o ministro agir contra a corrupção e até ser um sucessor do então presidente eleito, que na época garantia rejeitar a reeleição.

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Começando pela última, mal tomou posse na Presidência, Bolsonaro descobriu que era um lugar aprazível e já desconversou na história de não disputar um segundo mandato. Das três teses, essa, para mim, sempre foi a menos provável. Até porque, se Moro tivesse intenção de se candidatar, ele teria concorrido em 2018 mesmo. Sairia da magistratura em abril daquele ano, se filiaria a algum partido e disputaria com grandes chances de vitória, uma vez que ninguém, naquele momento, personificava mais o antipetismo, que favoreceu Bolsonaro, do que o ex-juiz da Lava Jato.

A tese de que lhe foi prometida uma vaga de ministro do STF, apesar de negada por Moro no pronunciamento desta sexta-feira, 24, pode até ser possível. Mas acreditar nela seria de uma inocência política monstra. Qual presidente da República colocaria um ministro num cargo tão estratégico para que não fosse seu advogado na Corte mais importante do País? Com sua independência e história, é claro que Moro não se encaixa neste perfil.

Todos os antecessores do atual presidente colocaram seus defensores lá. Com Bolsonaro não será diferente, sobretudo diante do fato de que um dos seus filhos está todo enrolado com a tal “rachadinha” da Assembleia do Rio e pesa sobre seus outros dois guris graves suspeitas de organizaram uma fábrica de fake news para agir contra tribunais, Poderes e personalidades. Assim, nunca foi tão importante para Bolsonaro ter embaixadores de suas causas no STF.

A tese que considero mais provável é a da promessa de carta branca para Moro agir no combate à corrupção e contra o crime organizado. No início do atual governo assisti entrevista de um procurador da República que contava que Moro, um estudioso da Operação Mãos Limpas, do início dos anos 1990, sabia que o combate à corrupção na Itália naufragou porque os políticos se reorganizaram com a máfia, já que não houve ao longo do tempo qualquer movimento incisivo de dentro do Poder para consolidar leis que resultassem numa mudança estrutural da sociedade e, assim, se evitasse a continuidade da ação da criminalidade de colarinho branco.

Segundo o entrevistado do programa, esse é o argumento que sustentou o apoio do Judiciário e de procuradores à decisão de Moro de aceitar compor o governo Bolsonaro. Ele entraria na máquina e, de dentro dela, promoveria marcos legais que garantiriam que assaltos como ocorrido pelo lulopetismo no Petróleo não mais se repetissem. Como o presidente se elegeu com a bandeira do combate à corrupção e assegurava carta branca para que seu ministro agisse, Moro julgou que estavam postas as condições para dar um desfecho à Lava Jato diferente da que teve a sua congênere italiana.

No entanto, em dezembro de 2018 surgiu o escândalo da “rachadinha” na Assembleia do Rio, pelo qual o “01”, o então deputado estadual Flávio Bolsonaro, na época recém-eleito senador, ficaria com parte dos salários dos servidores de seu gabinete, uma prática comum nos legislativos mas ilegal. O coletor de Flávio seria o ex-PM Fabrício Queiroz, que sumiu do mapa com o episódio.

A partir dali, a carta de Moro já não era mais tão branca assim. Por exemplo, Bolsonaro fingiu que não era com ele quando o Congresso tirou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do Ministério da Justiça para o Ministério da Economia. Foi esse órgão que deu ao Ministério Público o rastro da “rachadinha” do legislativo fluminense. Da mesma forma ocorreu com a desfiguração do Pacote Anticorrupção.

Conforme o cerco se fechava ao filho do presidente, mais Moro se tornava uma peça indesejável que precisava ser eliminada. Agora já não é só um filho atolado no lamaçal, uma vez que o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o vereador do Rio Carlos Bolsonaro estão encurralados por suas peripécias no campo das fakes news. Assim, o ex-ministro da Justiça e da Segurança Pública se tornou ainda mais persona non grata no governo.

Para piorar, o presidente comprou briga com o Judiciário e o Congresso Nacional. Sem apoio nesse último, resolveu fazer o que sempre condenou: ir às compras. Chamou os líderes do Centrão e já está loteando a máquina federal, como sempre se fez em Brasília, negociando com bandidos do Petrolão e do Mensalão e conhecidos “gigolôs de partido”, Roberto Jefferson (PTB) e Valdemar Costa Neto (PL). O interessante é que o ataque fulminante a Moro ocorreu, sem mais nem menos, após as negociações com esse grupo de criminosos, que não esconde o ódio que nutre pelo ex-juiz federal que levou vários deles para a cadeia.

Bolsonaro ficou 28 anos na Câmara sem fazer nada. Não tem um projeto que mereça qualquer citação, nunca relatou uma proposta digna da mínima relevância e sempre compôs partidos comandados pelos piores trastes da República e com eles teve convivência harmônica. Familiocrata, pôs os filhos para montar suas lojinhas, cada um com seu mandato. Votou com o governo Lula até quando lhe foi interessante. Depois soube surfar na onda do antipetismo.

Com esse perfil, como Moro pôde acreditar que teria carta branca? O ex-ministro cometeu um colossal erro de cálculo político ao apostar toda a carreira de magistrado num personagem tão paranóico, despreparado e desqualificado como Jair Messias Bolsonaro.

CT, Palmas, 24 de abril de 2020.

Tags: Jair BolsonaroPolíticaSérgio MoroTempo Real
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