CLEBER TOLEDO
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TEMPO REAL / Pazuello e a banalidade do mal de Hannah Arendt

Ao ver ex-ministro da Saúde general do Exército Eduardo Pazuello nessa quarta-feira, 19, na CPI da Covid do Senado, não deu para evitar a comparação com o que a filósofa alemã Hannah Arendt falou sobre o oficial nazista Otto Adolf Eichmann. Como Pazuello, Eichmann também era adepto do “um manda e o outro obedece”.

De origem judia, Hannah Arendt elaborou sua tese da banalidade do mal ao dissecar nos anos 1960 o julgamento de Eichmann, responsável pelo planejamento da chamada Solução Final, que resultou no extermínio de milhares de judeus na Segunda Grande Guerra. A filósofa disse que no banco dos réus não estava um monstro, mas um cidadão normal, que chegava em casa todas as noites, orava antes do jantar com a família e, como pai carinhoso, lia para os filhos antes de dormir. Era um sujeito de inteligência normal e que só obedecia ordens, por isso tudo, se dizia inocente. Inclusive, era verdade que ele nunca matou um único judeu com as próprias mãos. Apenas cumpriu ordens — “um manda o outro obedece”.

Na CPI também havia um oficial, mas do Exército brasileiro, que disse ter assumido o cargo de ministro da Saúde para cumprir uma missão. Sustentou que foi um cumpridor de normas, ateve-se às regras, inclusive, a de não se sentar com empresas para negociar, ainda que em jogo a compra de vacina que poderia ter salvado a vida de milhares de brasileiros.

Viu-se uma indiferença burocrática quando Pazuello falou da falta de oxigênio em Manaus. Ao invés de lágrimas e pesar pela morte de cerca de 2 mil pessoas afogadas no seco pela falta do elemento químico essencial à vida, o general do Exército apresentou um gráfico da White Martins, o que tirou do sério os senadores amazonenses, o próprio presidente da CPI, Omar Aziz (PSD), e Eduardo Braga (MDB), ambos ex-governadores daquele Estado e que sofreram a dor de seu povo no início do ano. “Presidente, é preciso dizer ao povo brasileiro: não faltou oxigênio no Amazonas apenas três dias, pelo amor de Deus. Ministro Pazuello, pelo amor de Deus. Faltou oxigênio na cidade de Manaus mais de 20 dias. É só ver o número de mortos. É só ver o desespero das pessoas tentando chegar ao oxigênio. Nós tivemos pico de morte no dia 30 de janeiro. Sabe quando chegou a carga de oxigênio que o senhor mandou do Ministério da Saúde para Manaus? Do dia 24 para o dia 25”, exasperou-se Braga, que tachou a informação do depoente de “errada e mentirosa”.

Não houve nenhum movimento pró-ativo em relação aos aviões oferecidos pelo governo dos Estados Unidos para transportar oxigênio para Manaus. Ninguém o procurou, não há ofício, não estava em nenhum regulamento. Novamente, o exemplar servidor público cumpridor de normas. Se 2 mil brasileiros morreram sem conseguir respirar foi por falta de normas que dissessem ao então ministro que ele deveria agir.

Não é verdade que Jair Bolsonaro tivesse determinado que ele cancelasse o compromisso de compra de 46 milhões de CoronaVac, a “vacina chinesa do Dória”. Afinal, o presidente afirmou isso nas redes sociais, não deu ordem direta a seu ministro, não enviou ofício. No entanto, quando disse essa mentira à CPI, mais uma vez, Pazuello estava apenas obedecendo ordens. Como o oficial nazista Otto Adolf Eichmann, o modelo de servidor que só cumpre o que lhe ordenam ou o que está nas normas.

Não existe “um manda e outro obedece” quando se trata da compra de 46 milhões de doses da vacina que poderia ter permitido que tantos maridos, esposas, pais, filhos ainda tivessem seus entes querido ao seu lado. Se a ordem superior era não comprar, e não houvesse outro meio de reverter, Pazuello — até como oficial do Exército que é, o que supõe compromisso com o País e não com governo — deveria ter se demitido. Aliás, como fizeram seus antecessores: Luiz Henrique Mandetta, quando viu que Bolsonaro não tinha compromisso com os protocolos científicos, e Nelson Teich, ao ser pressionado a indicar cloroquina contra a Covid-19. Os dois tiveram muito mais hombridade que o general do Exército.

Quem também rompeu a banalidade do mal de Hannah Arendt foi o delegado da Polícia Federal Alexandre Saraiva, que, em abril, quando superintendente da corporação no Amazonas, enviou ao Supremo Tribunal Federal notícia-crime contra o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o senador Telmário Mota (Pros-RR). No dia seguinte, Saraiva foi retirado do cargo. Nessa quarta-feira, ele celebrava nas redes sociais a operação que investiga exportação ilegal de madeira, cujo alvo é o ministro que o delegado denunciou à mais alta Corte do País.

Pazuello não só cumpriu cegamente todas as ordens e regulamentos, a despeito das mortes de brasileiros que poderiam ocasionar. Ao ser perguntando pelo relator da CPI da Covid, senador Renan Calheiros (MDB-AL), por que deixou o cargo de ministro, o general do Exército não titubeou: “Missão cumprida”.

Ele assumiu o ministério com cerca de 15 mil brasileiros mortos e entregou a pasta com 300 mil cadáveres.

A absoluta banalidade do mal.

CT, Palmas, 20 de maio de 2021.


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