Todos nós, principalmente quem passou a infância e adolescência no interior, guarda alguma ou algumas referências da natureza em suas lembranças.
Quando penso em minha terra natal, a primeira imagem que atravessa meu pensamento é a imponente serra, guardiã antiga da minha querida terra natal, das nossas histórias e dos nossos sonhos. Trata-se da Serra Geral, que por sua vez marca a divisa do Sudeste do Tocantins com o Estado da Bahia.
Era aquela serra que riscava o horizonte com firmeza e se incrustou na minha alma como uma moldura talhada por saudades. E ela parecia me dizer: “daqui pra frente é outro mundo” e eu, criança/adolescente inquieto, acreditei.
Foi olhando para aquela muralha de pedras, argila e verde de árvores pequenas e retorcidas que tive que partir, acreditando que a vida na cidade grande, a vida urgente, estava longe dali. Mal sabia eu que alguns passos não podem ser medidos pela distância, mas pela saudade que deixam.
Aquela serra, altiva e silenciosa, foi minha primeira professora de poesia. Me ensinou que o tempo pode ser medido pelo caminho do sol se escondendo do lado oposto de sua face larga. Me ensinou que as manhãs têm cheiro de esperança quando o orvalho ainda adorna as flores como gotas de luz.
A serra era cenário, era moldura, era o cartão postal que ninguém precisava comprar para guardar na memória. Bastava abrir a porta, ir para qualquer ponto da cidade, respirar fundo e deixar os olhos se perderem naquele desenho perfeito do relevo, que mudava de cor conforme a hora do dia. Pela manhã, vestia-se de um azul infinito; ao entardecer, de um lilás feito de silêncio e esperança, reverberando o sol que se punha do lado oposto emprestando à sua visão a impressão de uma cidade distante e iluminada.
Quantas vezes me sentei no topo de uma árvore do meu quintal, ou em um local mais elevado, só pra vê-la engolir os raios do sol? Quantas tempestades ela segurou antes que chegassem até nós? Quantas infâncias ela moldou com o vento que assobiava nas folhas do cerrado?
Mas eu fui embora. Deixei para trás o aconchego da cidade pequena, o cheiro de terra molhada depois da chuva, o canto dos pássaros que pareciam nos chamar pelo nome…
Deixei a serra, também, firme e paciente, como sempre foi.
Hoje, morando longe, percebo que ninguém realmente deixa a serra. Ela é quem fica plantada na gente. No jeito de mostrar o tempo, na saudade de um horizonte sem prédios e no sonho ou de quando em vez, ainda que só de passagem, volto a vê-la de perto.
A Serra Geral não é só paisagem. Não só passado. É presença.
E, quando a memória caminha de volta pra casa, é ela quem abre os braços primeiro.
“Quem tem ouvidos que ouça, quem tem olhos que veja!”
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
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