Ela não pede licença. Basta o céu escurecer, despejar as primeiras águas de março, e pronto: a dormideira decide que a cidade lhe pertence!
Do dia para a noite, o cinza dos canteiros e o vazio dos terrenos baldios ganham um tapete verde atrevido, pontilhado por glóbulos felpudos, de um tom rosa, quase lilás, que parecem emprestado de um sonho.
É uma invasão silenciosa e persistente. Enquanto o paisagismo oficial tenta impor ordens e simetrias, a dormideira ignora os formatos pré-estabelecidos e floresce até no asfalto trincado. É a beleza da espontaneidade, aquela que nasce onde o vento quis e a chuva permitiu.
Mas o fascínio não está apenas na cor e no ímpeto. Está no seu segredo. Explico.
A dormideira é a planta que sabe estabelecer limites diante da mão curiosa ou do passo apressado. Ela não revida; ela se retrai. Em um segundo, o que era uma folha aberta e confiante se fecha em um autoabraço defensivo, transformando-se em um traço fino, quase invisível. Assim que o perigo passa, ela se desdobra novamente, como a nos dizer que a força mais resiliente é aquela que sabe a hora exata de se recolher. É uma lição de etiqueta da natureza: a beleza está ali, disponível para quem quiser ver, mas a intimidade é um território fechado ao toque.
Vê-la atualmente é, para muitos de nós, abrir um porta-retrato empoeirado. Quem nunca, ao voltar da escola com os joelhos ralados, estancou o passo apenas para “fazer a mágica”? A dormideira foi o nosso primeiro brinquedo ecológico. Não havia google no bolso para explicar o “porquê” científico da retração ou a razão do nome pomposo de mimosa pudica. Havia apenas um segredo compartilhado por gerações: o mistério das folhas que dormem. Agachados, passávamos os dedos com uma mistura de pressa e entusiasmo e a mágica acontecia: a planta se retraía, as folhinhas se abraçavam e o verde sumia para dar lugar a um caule fino, quase tímido.
“Ela está dormindo”, alguém dizia com a autoridade de quem entende de segredos. A gente acreditava, pois não entender o mistério era justamente o que o tornava eterno. Ficávamos ali, parados, esperando o tempo dela, torcendo para que acordasse e novamente todo o processo de abrir e fechar se repetisse ao nosso comando.
Dia desses, indo almoçar em companhia de amigos, deparamos com centenas de dormideiras em um indefectível estacionamento improvisado, pairando majestosas entre entulhos de construção, indevidamente lançados. O assunto veio à tona e imediatamente fizemos o ritual do toque, para confirmar se a propriedade milenar continuava presente. Foi um alívio constatar que sim. O tempo passou, mas a magia da dormideira continua a nos encantar. Só para a gente falar de flores, como diria Geraldo Vandré.
ROSANNA MEDEIROS FERREIRA ALBUQUERQUE
É procuradora do Estado aposentada.















