CLEBER TOLEDO
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O caçador de impostos, pelo economista Tadeu Zerbini

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O caçador de impostos, pelo economista Tadeu Zerbini
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No rigoroso inverno do ano de 666 DC, em um reino recém-criado, muito pobre, localizado ao norte do Império, implantado depois de batalhas seculares, travadas entre o povo abandonado e sofrido do norte, que tinha como comandante de seu exército o Rei José, e o povo rico do sul, batalha esta vencida pelos nortistas, que obtiveram para si o domínio das terras do novo reino, chegou à cidade-sede do reino, um Cavaleiro conduzindo uma carruagem revestida de ouro que fora produzida no velho mundo, com o propósito de construir um novo mercado e levar o ensino da universidade local para todos os cantos do Império. E, ao contrário do perfil humilde dos moradores locais, ele se achava superior a todos e muito mais nobre, destacando-se nos negócios e na política, porque tinha muitas moedas.

O Cavaleiro falava uma língua diferente do povo local, demonstrando que tinha vindo de terras distantes, atravessando fronteiras, rios e florestas até chegar ao Reino do Rei José. Ninguém o conhecia, mas como o reino era novo e recebia pessoas de todas as partes do Império e, como o cavaleiro fora apresentado ao Rei, por um dos seus mais prestigiados súditos, que já tinha sido Ministro do Império, o Cavaleiro recebeu toda a atenção necessária e a ele foram concedidos muitos benefícios, como aquisição de terras para implantação de um mercado a custos subsidiados, contrato com a universidade que estipulava que ele, o cavaleiro, ficava com a quase totalidade das receitas cobradas dos mais de 100 mil alunos e as portas abertas do reino para o que ele precisasse. O Cavaleiro fez muito sucesso.

Aproveitando-se da situação econômica difícil do Reino, lançou seu nome para concorrer ao cargo de Rei. Para isto, aumentou ainda mais os impostos na cidade-sede, gerando o ódio em diversos segmentos das castas locais

Tadeu Zerbini É economista e consultor


Logo depois, vendeu seu mercado suntuoso e cancelou seu contrato com a Universidade do Reino, depois de causar prejuízos incalculáveis para os milhares de alunos, colocando o Reino do Rei José em uma situação muito embaraçosa em todo o Império, uma vez que os alunos não conseguiam receber seus diplomas e foi preciso intervenção do Império para que as irregularidades não continuassem.

Mesmo tendo sido muito bem recebido pelo Rei, em pouco tempo começou a falar mal dele, dos senadores, dos membros da câmara dos comuns e até mesmo dos auxiliares do Rei. Percebendo que aquele povo sofrido e pobre da cidade-sede do Reino estava insatisfeito com o andamento da política estabelecida, acabou por se candidatar ao cargo mandatário da cidade-sede contra o candidato do Rei e por meio de uma campanha milionária, versátil e inovadora, conseguiu a maioria dos votos dos eleitores “inocentes”, sendo eleito com a diferença de 7 mil votos, porém com minoria na Câmara “Baixa” dos Comuns.

Após tomar posse e trazer muitos “amigos” dos reinos do extremo sul do império para ajudá-lo a administrar a cidade-sede, conseguiu não se sabe como, cooptar junto a si a quase totalidade dos representantes da tal Câmara “Baixa”, inclusive do filho de uma Senadora do Império de quem ele falava muito mal.

Com a maioria da Câmara “Baixa” dos Comuns a seu favor, aprovando todas as suar ordens e determinações, deu inicio ao que ele mais sabia fazer, ou seja, cobrar impostos do povo para investir não se sabe onde, nem quando e nem para quê. Aumentou os impostos sobre a propriedade, alvarás de licenciamento e de funcionamento, e tantos outros. Implantou o imposto sobre a parada de carruagens, carroças e até de “burros” nos estacionamentos do centro da cidade-sede com o apoio da Câmara “Baixa dos Comuns” e o mais interessante é que as moedas da arrecadação desses estacionamentos não eram destinadas aos cofres da cidade-sede, mas sim a um mercador de outras paragens.

O povo pagava e não tinha justificativa nenhuma para a referida cobrança. Destruiu igreja e cancelou contratos dos pequenos mercadores que tinham autorização do mandatário anterior para trabalharem.

Não ficando satisfeito com as acomodações do seu Palácio, onde não tinha necessidade de gastar nenhuma moeda, alugou um palácio suntuoso, próximo ao Palácio do Rei, de propriedade de um mercador de grandes carruagens que transportava os pobres, logicamente, esses pobres também pagavam uma taxa para serem transportados, só que o aluguel daquele novo Palácio custava muitas moedas e por isto o povo tinha que pagar mais impostos e taxas para não deixar faltar nada aos cofres do Cavaleiro.

O Cavaleiro do alto de sua soberba passou a chamar de vagabundos e preguiçosos uma grande quantidade de pessoas que tinham uma história rica em contribuições com o Reino e, insatisfeito com aqueles que o ajudaram a chegar ao poder, resolveu abandoná-los e se juntar á antigos opositores que concorreram com ele ao governo local. Uma hora estava junto com a situação, outra hora estava com a oposição ao Rei, chegando a declarar que fazia isto por um simples motivo, “as moedas”.

Após mais de três anos a frente do cargo máximo da cidade-sede, começou a receber criticas dos antigos aliados porque passou muitas moedas para os organizadores dos esportes locais, em período próximo às eleições para o novo Rei, sem que houvesse qualquer justificativa. Em parceria com a empresa responsável pelo saneamento da cidade, fez reformas em ginásio e implantou calçadas a preços muito superiores aos realizados pelo Reino afora. Outro fato que recebeu muitas críticas foi o dele ter mandado seus aliados na Câmara “Baixa” dos Comuns alterarem o nome de “professor” para “monitor” (cuidador) de diversos profissionais da rede de ensino, para poder diminuir seus salários.

Dizem seus opositores, que a cor de moeda que mais lhe desagradava, era a “moeda verde”, inclusive houve uma operação da polícia do Império com este mesmo nome, que acabou por processar criminalmente diversas pessoas que construíram e ajudaram a construir um mercado em um Reino ao Sul do Império, aliás, muito parecido com o que o Cavaleiro construiu na cidade-sede.

Mesmo sendo um caçador voraz de impostos e de taxas, este Cavaleiro continuava a gozar de grande prestigio na Corte, sendo paparicado pelos seus milhares de súditos e, para abrilhantar ainda mais a sua “performance”, em mais uma jogada fantasiosa de marketing, resolveu mudar sua residência para o local mais pobre da cidade-sede, infelizmente se esquecendo que deveria dormir lá, e não em suntuosas suítes imperiais em diversos locais do mundo antigo. Com a imagem de bom pastor, conseguiu se reeleger para mais um mandato à frente da cidade-sede.

Como já previam os políticos do Reino, ele perdeu o apoio de vários membros da “Câmara Baixa”, os quais passaram a divulgar várias notícias sobre atos obscuros da administração do “tal” caçador de impostos. Não bastassem os ataques constantes que diversos membros da Câmara Baixa faziam contra ele, a Justiça do Reino determinou que fosse cancelado o maior projeto dele, a construção de um grande corredor especifico para circulação das grandes carruagens para conduzir os pobres, logicamente se esses pobres pagassem em moedas suas passagens.

O projeto previa mais carruagens que pobres para serem carregados e este projeto somente seria necessário e justificável depois de 50 anos de sua implantação. A polícia do império abriu processo para investigar o projeto e o levou para ser interrogado. O Cavaleiro ficou aborrecido, pois deixaria de arrecadar mais moedas e deixaria também de receber muitas outras moedas do Império.

Aproveitando-se da situação econômica difícil do Reino, lançou seu nome para concorrer ao cargo de Rei. Para isto, aumentou ainda mais os impostos na cidade-sede, gerando o ódio em diversos segmentos das castas locais. De olho nos impostos do reino, sabendo que poderia aumentar ainda mais a arrecadação de moedas para si, passou a percorrer as vilas do reino para angariar simpatia, com o discurso populista de que tirava dos ricos para dar para os pobres e que não concebia a ideia de se ter um ancião representando o reino no senado do Império. Ele dizia para o povo que não existia ninguém tão competente como ele para ser Rei. Muitos traidores do reino apoiavam sua caçada aos impostos, levando-o a conhecer pessoas e locais que ele jamais tinha visitado.

Dizem ainda que o Cavaleiro fora aclamado pelos “publicanos”como seu Rei. Foi considerado o melhor caçador de impostos de todo o império, fazendo inveja a ”Cezar” e a tantos outros tiranos. Mesmo não tendo feito nenhuma obra importante de infraestrutura, os traidores do reino continuavam a admirá-lo, simplesmente por causa das suas moedas e pela oportunidade de estarem no poder.

A saga continua……….


TADEU ZERBINI
É economista, especialista em Gestão Pública, professor e consultor
ctzl@uol.com.br

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