A guerra divide, a esperança une. A prepotência pisa, o amor levanta.
E, no entanto, ainda contamos corpos como quem conta moedas,
ainda erguemos monumentos ao medo e dobramos a bandeira
sobre túmulos que já não cabem na terra nem no coração.
O mundo parece um imenso cemitério à deriva,
onde a cada manhã se abrem valas novas
para receber não apenas mortos,
mas promessas abortadas, infâncias roubadas, velhices sem abrigo.
Há estatísticas que não cabem em planilhas,
porque carregam nomes, fotografias, dentes de leite, alianças partidas.
Os governos escrevem comunicados,
assinam protocolos como se rubricassem o próprio álibi,
e falam de danos colaterais
para esconder que os estilhaços têm endereço, rosto, sobrenome.
Chamam de estratégia o que é apenas cobiça,
de segurança o que é medo,
de ordem o que é silêncio imposto.Mas Deus não governa assim.
O reino d’Ele não é um tabuleiro de peças descartáveis,
nem um palco de marionetas obedientes ao fio do mais forte.No seu reino, cada vida é idioma único,
cada lágrima tem o peso de uma oração inteira,
cada perdão é uma revolução que não sai no noticiário.
Ele não banaliza o mal, não normaliza a injustiça,
não celebra lucros extraídos de escombros.
O seu poder é outro: é fazer germinar,
em meio ao entulho das nossas guerras,
uma pequena flor de dignidade,
uma mão estendida quando todas se fecharam,
um olhar que diz “tu és meu irmão”
onde só se ouvia “tu és meu inimigo”.
Por isso, continuar orando pela paz
não é fuga, é insubmissão.
É recusar-se a aceitar que o ódio tenha a última palavra,
é conspirar com o céu contra o cinismo da terra,
é oferecer ao mundo, desarmados,
o escândalo de ainda acreditar no amor.
Quando passamos as contas do rosário,
não repetimos fórmulas:
contamos dores, confiamos nomes,
devolvemos à memória divina aqueles que o noticiário já esqueceu.
Ave após ave, mistério após mistério,
vamos lavando, com dedos trêmulos,
a poeira de morte que cobre o rosto da história.
Talvez pareça pouco diante dos canhões,
mas é assim que o Reino começa:
num sussurro que não chega aos mapas,
num gesto escondido que nenhuma cúpula registra,
na decisão íntima de não odiar hoje,
de perdoar o que já parecia irreconciliável,
de levantar, com extrema delicadeza,
aqueles que a prepotência derrubou.
A guerra divide, a esperança une.
A prepotência pisa, o amor levanta.
Entre uma coisa e outra, estamos nós:
frágeis, contraditórios, feridos,
mas ainda capazes de escolher em que lado da frase queremos viver.
Continuemos, então, orando pela paz —
até que a paz aprenda, em nós, a virar carne,
voz, voto, gesto, abraço,
e já não seja apenas súplica,
mas presença teimosa no meio deste mundo em ruínas.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.
















