Há notícias que merecem ser celebradas sem perder de vista a responsabilidade de preservar as conquistas alcançadas.
A confirmação, pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), de que o Brasil permanece fora do Mapa da Fome é uma delas.
O relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026, elaborado pela FAO em conjunto com o FIDA, UNICEF, Programa Mundial de Alimentos (PMA) e Organização Mundial da Saúde (OMS), indica que, no triênio 2023-2025, o Brasil manteve a Prevalência de Subnutrição abaixo de 2,5% da população, parâmetro técnico utilizado para definir se um país integra ou não o chamado Mapa da Fome.
O estudo também registra que a insegurança alimentar severa caiu para 0,6%, o menor índice da série histórica, representando a saída de 16,7 milhões de brasileiros dessa condição extrema.
A notícia é importante porque a fome não é apenas um problema económico. Ela representa uma violação da dignidade humana.
Um país que produz alimentos em abundância não pode conviver, passivamente, com cidadãos privados do direito mais elementar: alimentar-se.
É igualmente necessário recordar a nossa história recente.
O Brasil já havia saído do Mapa da Fome em 2014, resultado de um conjunto de políticas públicas de combate à pobreza e de promoção da segurança alimentar.Contudo, anos depois, o país voltou a integrar esse indicador internacional, refletindo o agravamento da insegurança alimentar provocado por múltiplos fatores, entre eles a crise económica, os efeitos da pandemia e o enfraquecimento de diversas políticas sociais.
Ao reassumir a Presidência da República em 2023, Luiz Inácio Lula da Silva estabeleceu como uma das prioridades do seu governo retirar novamente o Brasil do Mapa da Fome.
Os dados agora divulgados pela FAO confirmam que essa meta foi alcançada e mantida, fruto de políticas públicas voltadas para a proteção social, recuperação da renda, fortalecimento da agricultura familiar e ampliação do acesso à alimentação.
Independentemente das divergências políticas, este resultado é um dado objetivo reconhecido por organismos internacionais.
Naturalmente, seria um erro concluir que o problema da fome está definitivamente resolvido.
Permanecer fora do Mapa da Fome não significa que todos os brasileiros estejam plenamente alimentados ou que a pobreza tenha desaparecido.
Ainda existem milhões de pessoas vivendo em situação de vulnerabilidade e muitas famílias enfrentam dificuldades para manter uma alimentação adequada.
O próprio desafio da segurança alimentar exige vigilância permanente e políticas públicas consistentes.
O combate à fome não deveria ser uma bandeira de um governo, de um partido ou de uma corrente ideológica.
Deve ser um compromisso de Estado. Nenhuma democracia se fortalece quando parte da sua população convive com a privação alimentar.
Nenhuma economia pode considerar-se plenamente bem-sucedida se parte dos seus cidadãos ainda depende da incerteza da próxima refeição.
A história recente do Brasil ensina uma lição valiosa: é possível vencer a fome, mas também é possível retroceder. As conquistas sociais não são irreversíveis.
Elas precisam ser continuamente protegidas, aperfeiçoadas e colocadas acima das disputas políticas.
Que a permanência do Brasil fora do Mapa da Fome não seja apenas motivo de celebração, mas sobretudo um compromisso renovado. Porque o verdadeiro desenvolvimento de uma nação mede-se menos pela riqueza que produz e muito mais pela capacidade de garantir que nenhum dos seus filhos precise adormecer com fome.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.
















