Há quem diga e são muitos que o mundo é apenas aquilo que se pode tocar. Madeira é madeira, pedra é pedra, água é água. O resto, dizem, é imaginação, consolo para o medo humano diante da morte e mesmo porque o ser humano nunca se contentou apenas com o que vê. Isso incomoda, e muito, aos materialistas de plantão.
Desde as primeiras noites sob o céu estrelado, alguém olhou para cima e sentiu que havia mais. Não era só a vastidão escura, era uma espécie de chamado silencioso. Um sussurro antigo dizendo que a realidade talvez não termine na fronteira dos sentidos.
Às margens do Lago de Tiberíades, contam os Evangelhos que Jesus falava de um Reino que não era deste mundo. O vento soprava sobre as águas, os barcos balançavam, pescadores remendavam redes, tudo concreto, cotidiano. E, ainda assim, Ele falava de algo invisível, mas mais real que a própria areia sob os pés. Falava de um Reino que não se mede por território, mas por transformação interior.
Curioso: o cenário era simples. Água doce como qualquer outra. Gente comum como qualquer outra. Mas as palavras apontavam para além do horizonte físico. Como se o lago fosse espelho de outra dimensão.
Platão, séculos antes, também desconfiara da superfície das coisas. Dizia que o mundo visível seria apenas sombra de uma realidade maior. Talvez sejamos habitantes de uma caverna, olhando projeções e acreditando que aquilo é tudo.
E se estivermos enganados?
A ciência, com sua precisão admirável, nos ensinou a medir o tempo, pesar estrelas, mapear o código da vida. Mas, quando o assunto é consciência, amor ou aquela estranha sensação de eternidade que às vezes nos visita, os instrumentos parecem insuficientes. O bisturi e os demais instrumentos médicos não encontram a saudade. O microscópio não captura a esperança. Nada consegue explicar os sonhos e a esperança que estão dentro de cada um de nós.
Então ficamos nesse limiar. Entre o que se prova e o que se sente. Entre o que se explica e o que se experimenta. Talvez o mundo espiritual não seja um lugar distante, escondido atrás das nuvens. Talvez ele seja uma dimensão que atravessa esta mesma realidade, como o vento que não vemos, mas que move as folhas e arrepia a pele.
Há momentos em que o tempo parece suspenso: no nascimento de um filho, na despedida de alguém querido, numa oração silenciosa, ou mesmo numa paisagem tranquila refletida na água de um lago ou um rio qualquer. Nessas horas, algo dentro de nós reconhece que há mais. Não como prova matemática, mas como intuição profunda.
Talvez a existência do mundo espiritual não se imponha como evidência científica, mas se insinue como necessidade humana. Não como fuga da realidade, mas como expansão dela.
E assim seguimos, habitantes do visível, mas inquietos pelo invisível. Com os pés na terra, mas o coração sempre olhando para além do horizonte.
“Quem tem ouvidos que ouça, quem tem olho que veja!”
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
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