Há derrotas que terminam quando o árbitro apita.
E há derrotas que continuam muito depois de o estádio ficar vazio.
O Brasil perdeu para a Noruega. A bola, indiferente às grandezas históricas, não perguntou quantas Copas tínhamos, quantos gênios vestiram a camisa amarela, nem quantas vezes o mundo se curvou diante do nosso futebol.
Entrou onde não devia entrar, recusou-se a entrar onde queríamos, e o placar escreveu a sua pequena sentença.
Mas não vi humilhação nisso.
Futebol é o território sagrado do imprevisto. Gigantes caem. Pequenos crescem.
Campeões perdem. Favoritos voltam para casa. Uma derrota esportiva pode ferir o orgulho, mas não necessariamente diminui uma nação.
A verdadeira questão começa quando saímos do estádio.
Porque a Noruega, pequena em população e imensa em visão, encontrou petróleo e fez uma pergunta que poucas sociedades têm coragem de fazer:
— E quando nós já não estivermos aqui?
Essa pergunta vale mais do que muitos barris.
Diante da riqueza, poderia ter escolhido a embriaguez do presente. Poderia ter transformado petróleo em desperdício, privilégios, corrupção, obras faraônicas, fortunas súbitas e campanhas eleitorais. Poderia ter confundido abundância com eternidade, como tantas nações fizeram ao longo da História.
Mas escolheu pensar no tempo.
E pensar no tempo é uma das formas mais elevadas de governar.
A Noruega compreendeu que o petróleo pertence também aos que ainda não nasceram. Que uma geração não tem o direito moral de consumir sozinha aquilo que a natureza levou milhões de anos para formar.Que governar não é apenas resolver a próxima semana, vencer a próxima eleição ou agradar aos próximos aliados.
Governar é conversar com o futuro.
Por isso, transformou parte da riqueza petrolífera em patrimônio intergeracional. Fez do recurso finito uma reserva duradoura.
Em vez de perguntar apenas quanto poderia gastar hoje, perguntou quanto deveria preservar para amanhã.
E eu penso no Brasil.
Penso no pré-sal.
Penso na euforia das descobertas, nas promessas grandiosas, nos discursos inflamados, na ideia de que finalmente havíamos encontrado uma espécie de passaporte geológico para o futuro.
Também nós encontramos petróleo.
Mas encontrar riqueza nunca foi o maior problema das nações.
O problema é encontrar sabedoria.
O Brasil é um país extraordinariamente rico que, demasiadas vezes, administra suas abundâncias como um homem faminto diante de uma mesa que acredita ser infinita.
Temos água, terras, minérios, petróleo, biodiversidade, inteligência, universidades, ciência, agricultura, cultura e um povo de espantosa capacidade de sobrevivência.
E, ainda assim, continuamos tropeçando na velha tentação de sacrificar o amanhã para financiar as urgências, os interesses e as conveniências do presente.
Não digo isso como quem acredita que a Noruega seja perfeita ou que o Brasil possa simplesmente copiar um país escandinavo.
Seria intelectualmente desonesto ignorar diferenças históricas, demográficas, sociais e econômicas profundas. O Brasil carrega desigualdades seculares, dimensões continentais e feridas que não cabem numa comparação simplista.
Mas há princípios que atravessam fronteiras.
Responsabilidade não tem nacionalidade.
Planejamento não tem clima.
Honestidade pública não depende da latitude.
Visão de futuro não é privilégio dos povos do Norte.
O Brasil não deve sentir vergonha de ter perdido uma partida de futebol para a Noruega.
Vergonha seria perder a capacidade de aprender.
Porque, no fundo, a diferença mais dolorosa talvez não esteja entre duas seleções.
Está entre duas maneiras de olhar uma riqueza.
Uma olha para o petróleo e pergunta:
— Quanto podemos tirar daqui agora?
A outra pergunta:
— O que deixaremos para aqueles que virão depois de nós?
E talvez toda a grandeza de uma nação caiba justamente nessa segunda pergunta.
Os jogadores brasileiros podem perder para os noruegueses. Amanhã haverá outro jogo. Outra convocação. Outro estádio. Outra Copa.
O futebol sempre oferece revanche.
A História, nem sempre.
Porque um gol sofrido pode ser recuperado na partida seguinte.
Mas uma riqueza desperdiçada, uma geração abandonada, uma escola que não foi construída, uma universidade enfraquecida, uma oportunidade histórica perdida — essas derrotas não aparecem no placar.
Aparecem décadas depois.
No rosto dos filhos.
No desencanto dos netos.
No silêncio dos que perguntarão por que recebemos tanto e deixamos tão pouco.
Por isso, depois da derrota, não quero discutir apenas quem marcou mal, quem chutou para fora ou quem deveria ter sido substituído.
Quero fazer outra pergunta:
quando o Brasil olha para as suas riquezas, consegue enxergar os brasileiros que ainda não nasceram?
A Noruega encontrou petróleo.
Mas sua maior descoberta talvez tenha sido outra:
descobriu que uma nação verdadeiramente rica é aquela que não gasta o futuro dos próprios netos.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.













