Existe uma história frequentemente atribuída ao ex-governador Siqueira Campos que traduz, com simplicidade, uma das maiores virtudes da boa gestão pública. Durante uma viagem pela rodovia entre Palmas e Lajeado, o então governador que percorria a serra acompanhado de seu motorista e de dois oficiais da Polícia Militar do Estado do Tocantins. Em determinado momento, perguntou ao motorista: Diga-me, o que você vê nesta serra? A resposta foi imediata, uma bela paisagem, árvores exuberantes e uma natureza admirável. O governador concordou, mas acrescentou uma reflexão que permanece atual: “Para governar, é preciso enxergar também o que existe do outro lado da serra.”
Mais do que uma metáfora, essa frase representa uma filosofia de planejamento. Governar não é apenas administrar as necessidades do presente, é preparar o futuro antes que ele chegue. É compreender que as decisões tomadas hoje determinarão a qualidade de vida das próximas gerações.
Essa visão inspira o trabalho desenvolvido pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico, Sustentável e Estratégico de Porto Nacional (CODESE-PORTO), responsável pela construção do Plano Porto-2038, A Cidade de Todos Nós. O plano não é uma promessa para um futuro distante. Ao contrário, estabelece uma direção estratégica para orientar as escolhas do presente.
Nenhuma cidade alcança elevados níveis de desenvolvimento por acaso. Os municípios que hoje se destacam nacionalmente iniciaram seu processo de transformação décadas antes, investindo em planejamento, infraestrutura, educação, mobilidade, inovação e desenvolvimento econômico. O progresso consistente sempre é consequência de uma visão de longo prazo.
Porto Nacional reúne todas as condições para trilhar esse mesmo caminho. Sua localização privilegiada, sua tradição histórica, sua força econômica e sua capacidade logística colocam o município em posição estratégica no cenário tocantinense e nacional. Entretanto, potencial, por si só, não produz desenvolvimento. É preciso organização, planejamento e capacidade de transformar oportunidades em resultados concretos.
É exatamente esse o propósito do Plano Porto-2038.
A estratégia está estruturada em dois grandes eixos complementares. O primeiro, denominado TERRA VIVA, busca fortalecer a base produtiva rural, valorizando pequenos e médios produtores, cooperativas, agricultura familiar, pecuária e agroindústrias. O objetivo é ampliar a geração de renda, agregar valor à produção e estimular o desenvolvimento sustentável do campo.
O segundo eixo, PORTO ESTRATÉGICO, parte de uma compreensão essencial, produzir é importante, mas transformar produção em riqueza exige infraestrutura, logística e integração. A presença da Ferrovia Norte-Sul, da Plataforma Multimodal operada pela VLI, da BR-010, do Aeroporto de Porto Nacional, do Parque Agroindustrial e das áreas destinadas à logística e industrialização constitui um conjunto de ativos que poucos municípios brasileiros possuem simultaneamente.
Os resultados dessa estratégia já começam a ser percebidos. A Plataforma Multimodal impulsiona novos investimentos, enquanto a ZEN – Zona Especial de Negócios estrutura uma área preparada para receber grandes empreendimentos. Ao mesmo tempo, empresas como Grupo Fazendão, ATEM, Larco Distribuidora e Truck Center já se instalaram na ZEN, enquanto a Cargill consolidou sua operação no Parque Agroindustrial. Juntas, demonstram, na prática, que o ambiente de negócios construído em Porto Nacional desperta a confiança da iniciativa privada.
A isso soma-se outro importante vetor de crescimento, o empreendimento de mineração de ouro em Monte do Carmo, cuja influência econômica tende a ampliar significativamente a demanda por serviços, comércio, logística e infraestrutura regional, consolidando Porto Nacional como polo estratégico de apoio ao desenvolvimento do centro do Tocantins.
Nesse contexto, o novo Anel Viário da BR-010 ganha um significado muito mais amplo do que o de uma simples obra rodoviária. Trata-se de uma infraestrutura estruturante, capaz de integrar produção, indústria, ferrovia, aeroporto e corredores nacionais de transporte, ao mesmo tempo em que permitirá uma profunda requalificação urbana do atual anel viário, transformando-o em uma avenida integrada ao crescimento planejado da cidade, aos corredores de mobilidade, aos parques lineares, ao comércio e aos serviços.
Obras públicas isoladas possuem importância limitada. Inseridas em uma estratégia consistente de desenvolvimento, tornam-se instrumentos capazes de transformar uma cidade.
É justamente essa diferença que distingue o planejamento estratégico das ações imediatistas.
Assim, olhar para “o outro lado da serra” não significa ignorar os desafios do presente nem desprezar a história construída até aqui. Significa compreender onde queremos chegar para tomar, hoje, as decisões mais acertadas. Afinal, o futuro não começa em uma data específica. Ele é construído diariamente, por cada investimento realizado, por cada política pública implementada e por cada decisão responsável assumida pela sociedade.
Porto Nacional aproxima-se de seus 300 anos de história carregando um patrimônio cultural, político e econômico que orgulha todo o Tocantins. Mas o verdadeiro legado que uma geração pode deixar não está apenas na preservação dessa história; está na capacidade de preparar as condições para que as próximas gerações encontrem uma cidade mais desenvolvida, mais competitiva, mais sustentável e mais humana.
As cidades que transformam seu destino não são aquelas que apenas administram o presente. São aquelas que têm coragem de planejar o futuro.
Ao celebrar seus 165 anos de emancipação política e 288 anos de história, Porto Nacional reafirma sua vocação como berço cultural do Tocantins e como protagonista do desenvolvimento estadual. Que esta seja, acima de tudo, uma oportunidade para renovar o compromisso coletivo com uma visão de longo prazo.
Porque o futuro de Porto Nacional não começará em 2038. Ele já começou.
CARLOS DEMÓSTENES MOURA BRAGA
É presidente do Conselho de Desenvolvimento Econômico, Sustentável e Estratégico de Porto Nacional (CODESE-PORTO)












