CLEBER TOLEDO
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TEMPO REAL / Fingimos bem que a Covid-19 é passado; falta decidir o que fazer com os cadáveres

Aos poucos vamos dando normalidade à vida. O clima de otimismo é tamanho que já há quem queira colocar crianças e jovens de volta aos bancos escolares. Até os voos serão retomados, provando que a rotina já beira o que era antes da pandemia. Com exceção da máscara e do álcool em gel à mesa, para passar uma sensação de segurança aos amedrontados pela mídia, que ainda insiste em mostrar números de novos casos e mortes avançando em ritmo geométrico. Fora isso, o clima é de pós-pandemia.

Pelo bem da economia, o foco da cobertura de TVs e sites deveria ser os curados e os que conseguiram deixar os hospitais após semanas de UTI, e de até serem dados como mortos. Para que dizer a todo instante que o Brasil tem 67.964 óbitos e que os casos já chegaram 1.713.160, que cerca de 1,3 mil vidas são perdidas por dia e pelo menos 45 mil infectados a cada 24 horas?

Que diabos interessa se Palmas praticamente triplicou as confirmações diárias da doença em relação ao período anterior ao da reabertura do comércio? Que se ganha em informar que a ocupação de UTIs na capital do Tocantins tem assustado e que já houve dia em que bateu bem mais de 60%? Por que ficar martelando que tem casos demais na região sul da cidade, de onde partem e chegam os ônibus de transporte coletivo com 100% de lotação? Quem quer saber que Porto Nacional segue no mesmo rumo? Que gente demais ainda morre no norte e no Bico do Papagaio?

Pautas velhas e surradas. A hora é de otimismo. Deixa o povo voltar aos shoppings, bares, academias, praias e até ir aos templos. Tempos difíceis. Precisamos de fé. Em todos esses lugares exige-se máscara e tem álcool em gel, como querem os inconvenientes da quarentena. Enfim, podemos vender depois de três meses de prejuízos com o comércio fechado e os chatos pedindo para todos ficarem em casa.

A marca deste novo tempo de pós-pandemia que vivemos foi o primeiro Fla-Flu. Para que possamos celebrar abraçados, tomando todas e vibrando muito este Brasil já praticamente livre da Covid-19. Até os malas do isolamento baixaram a guarda, deixaram de lado sua obsessão pelo novo coronavírus e comemoraram a volta do Carioca. O futebol, como sempre, unindo os diferentes lados.

Com a demanda reprimida por meses de reclusão, a noite está agitada como há muito não se via. Os bares apinhados de gente, shoppings com famílias passeando para lá e para cá, academias e seus marombas de todo tamanho saindo e entrando, e igrejas vibrando tamanha a demonstração de fé dos fieis após um jejum interminável. É hora da virada. É o novo dia raiando. Chega de ficar trancado em casa, neurótico, só pensando em vírus. É a volta à normalidade neste pós-pandemia.

Para o caso de um ou outro que insiste em adoecer, liga não. Como ensinou o nosso presidente, é uma chuva que vai atingir a todos nós. Uma hora ou outra. Mas, se você é jovem, não vai ser mais que uma gripezinha. Deveríamos até dar nome como naqueles surtos que de vez em quando aparecem. Com um apelido engraçado ou simpático, riríamos muito em volta da mesa do bar, entre um chope e outro, quando alguém espirrasse, estivesse febril, todo dolorido. Com isso, acabaríamos com esse medo besta, esses cuidados demasiados, esses não-me-toque-não-me-reles de uma geração criada a Todynho. Tudo bobagem de uma mídia irresponsável, obcecada em seu projeto de destruição do “mito”.

E daí se for velho? Fazer o quê? Como também nos ensinou nosso líder máximo, nossa referência, todo mundo uma hora vai morrer. O quê? Seu pai, sua mãe, sua vó, seu vô, seus irmãos, seus tios? Quer que eles fiquem para raiz? Vão morrer também. Esquente, não. É da vida.

A questão é de foco: não devemos ficar com a Covid-19 o dia todo na cabeça. Vamos desligar a televisão, sair dos sites. Se acreditarmos que já passou, não veremos mais coronavírus nenhum. Todo mundo sairá normalmente de casa, vai passear, trabalhar, se divertir, rezar, e o que mais quiser fazer. Sem neura, entende?

E estamos indo muito bem. Veja o que aconteceu: autoridades, empresários, trabalhadores, todos nós, mentalizamos ter chegado ao pico e que os números começaram a cair. Pronto. Isso basta. Voltamos à vida! Deixem que falem de casos e casos e casos. Se não pensarmos nisso, continuarmos focado no que é prioridade — nossas empresas, exercícios, lazer e orações —, tudo estará bem, tudo ficará bem.

Cadáveres? Que cadáveres, oh agourento? Nas casas? Nos hospitais? Bem, nisso ainda não pensei em como resolver. Que tal esconder?

Quer saber? Não sou coveiro…

CT, Palmas, 8 de julho de 2020.


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