CLEBER TOLEDO
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TEMPO REAL / Mudanças partidárias bruscas, e março apenas começou

Faltam exatamente 30 dias para o fim do prazo de filiação partidária para os pré-candidatos das eleições de outubro. É a tão sonhada “janela” que os parlamentares insatisfeitos com suas agremiações aguardam com tanta ansiedade para trocar de legenda sem se serem considerados infiéis pela Justiça Eleitoral. No entanto, para a tristeza deles, essa “janela” não está sendo tão positiva quanto esperavam.

Como a coluna já abordou, por conta do fim das coligações proporcionais, os vereadores estão sendo considerados personae non gratae nos partidos. Uns presidentes negociaram diplomaticamente a saída deles e outros foram secamente convidados a se retirar. Tudo porque as legendas são pressionadas por pré-candidatos sem mandato e com bom potencial de votação. Eles não querem ser usados de escadinha para a reeleição de quem tem mandato, e só aceitam ingressar em siglas com nomes com capacidade equivalente à deles. Logo, vereador, que tem mídia espontânea e até emendas parlamentares para os bairros (como ocorre em Palmas), representam uma concorrência desleal. Assim, os que deixam o seu partido neste momento têm dificuldades de se reacomodar em outro.

Se de um lado, a falência das ideologias pode ser vista como um momento de relaxamento das tensões políticas, também abre margem para todos de desvirtuamento da vida pública que assistimos nos últimos tempos

CLEBER TOLEDO É jornalista e editor da Coluna do CT

Além desse fato político criado pela nova legislação eleitoral, há outros movimentos que têm chamado a atenção. Nesta semana tivemos o desfecho, tardio, do PSDB do Tocantins. A executiva nacional tucana atrasou em, no mínimo, três ou quatro meses, a estratégia de consolidação do grupo da prefeita de Palmas, Cinthia Ribeiro, ao protelar uma decisão que era inevitável. Foi uma piada de mau gosto a reunião anterior da executiva em Brasília que decidiu “delegar todo poder” para o presidente nacional, Bruno Araújo, garantir a candidatura à reeleição de Cinthia. Acabou que Araújo continuou como antes, sem fazer nada, e a própria executiva que havia delegado poderes agiu e resolveu a parada. Executiva nacional não delega poderes para casos desse tipo. Ela simplesmente resolve, como fez, por exemplo, o MDB em 2014 para garantir a candidatura de Marcelo Miranda e Kátia Abreu. Não é à toa que o PSDB perdeu seu protagonismo no País e se tornou o partido insosso que é hoje.

A direção nacional tucana deveria ter tomado essa decisão no segundo semestre do ano passado para que Cinthia tivesse mais tempo para estruturar o partido e acomodar seu grupo. Agora, como ela disse à Coluna do CT, terá que literalmente “se virar nos 30” para dar conta de resolver todas as pendências políticas de pré-campanha até o dia 4 de abril. Pior, sob um clima de insegurança jurídica criado pela própria executiva nacional, ao demorar se decidir, e que levará à judicialização da situação do Tocantins, como já adiantou o ex-presidente regional Ataídes Oliveira. Um pré-candidato a vereador ou a prefeito do Estado deve estar pensando se agora compensa ficar ou ingressar num partido nessas condições, ou se seria melhor procurar outro rumo.

Também chamou a atenção neste início de março, que os políticos em Brasília estão chamando de mês de cachorro louco, por essas mexidas inesperadas, foi a desfiliação do ex-presidente regional do PT Júlio César Brasil para ir para o outro extremo, o Democratas. Essa cambalhota da esquerda para a direita é totalmente anormal e mostra que o pragmatismo venceu a ideologia. Alguém que militou à esquerda por 25 anos, de repente, joga de lado todas as doutrinas que pregava e muda para o outro extremo do campo, que prega totalmente o inverso do que se acreditava antes, é algo realmente fora do comum.

A explicação do também ex-prefeito de Couto Magalhães de que a nova conjuntura do País torna mais fácil conseguir recursos para o município junto de outras forças políticas é compreensível diante da situação de penúria das prefeituras, mas, ao mesmo tempo, só confirma a vitória do pragmatismo sobre a ideologia.

Se de um lado, a falência das ideologias pode ser vista como um momento de relaxamento das tensões políticas, também abre margem para os desvirtuamentos da vida pública que assistimos nos últimos tempos. Deixar a ideologia de lado, também pode significar abandonar valores que norteiam os rumos do homem. Sem princípios claros, tudo é válido, mudar de campo de atuação para obter recursos para obras públicas e também agir em interesse próprio e não do coletivo.

Claro que não se está dizendo aqui que essa última e condenável prática se aplica a Júlio César, que tem uma história de vida pública que precisa ser respeitada, mas é inegável que a metástase das práticas não republicanas resulta de agentes que não fazem política por ideologia, ou seja, por valores sólidos, mas por interesses meramente egoísticos.

Sou um liberal de centro-direita, não tenho qualquer simpatia pelo PT, mas respeito diversos de seus quadros, do Tocantins e de fora dele. Mais que isso, sou apaixonado pela boa política. Por isso, também fiquei triste com esse episódio em que o pragmatismo venceu, porque cada dia mais ele nivela a política por baixo.

Não é por outro motivo que nunca estivemos tão carentes de bons líderes. Essa é a maior crise que o Brasil enfrenta neste momento, a crise de liderança.

CT, Palmas, 6 de março de 2020.


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