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TEMPO REAL / Quem tinha razão era dona Dineia, do dormitório-motel de Xambioá

Pelas redes sociais circulou já no início da semana o vídeo de dona Dineia, proprietária de um dormitório de Xambioá, no Bico do Papagaio, que também, como ela mesma ressalta em outras palavras, faz as vezes de motel. A simpática e expressiva senhora mostra na gravação toda a sua revolta com o lockdown que também deveria atingir sua cidade, onde a Covid-19 alcançou 31 pessoas e matou uma delas.

No fundo, Dona Dineia sabia que o desconhecido lockdown era mais para assustar seus esperados clientes, que lhe garantem a sobrevivência, do que um ato pra valer, para realmente acontecer

O vídeo de Dona Dineia foi sucesso de público e crítica, ao contrário do lockdown, que terminou sem começar. Humildemente, a empresária do descanso e do prazer admite nem saber “o que é isso”, o lockdown. Apesar do desconhecimento semântico, de duas coisas ela tem certeza: 1) é algo que dará prejuízo ao seu negócio e 2) que a ideia não iria pegar, como não pegou. Assim, deixou claro em seu comunicado aos clientes: “Não tem lockdown aqui em casa, não! Se vier para dormir, vai dormir, se vier para ‘furar o couro’, vai ‘furar o couro’”. Lógico, com um serviço mais amplo, precisava levar a mensagem a todo seu vasto público de viajantes e também amantes.

Abusada, Dona Dineia ainda deu uma lição de saúde pública às autoridades municipais e estaduais. “Por que antes de entrar o vírus aqui na nossa cidade não fecharam as portas? Hum? Fizeram foi escancarar, abrir as portas”, criticou, com absoluta razão.

No fundo, Dona Dineia sabia que o desconhecido lockdown era mais para assustar seus esperados clientes, que lhe garantem a sobrevivência, do que um ato pra valer, para realmente acontecer. Aliás, nessa pandemia, o tocantinense já se acostumou com isso: decretos e medidas rigorosos publicados no Diário Oficial, com toda formalidade, revestidos de toda austeridade mas que, na prática, permanecem como meras palavras. Fica o publicado pelo publicado, e não vai além disso.

Dessa forma, impõem-se uma quarentena supostamente séria, prometendo fiscalização, multas e até levar às barras dos tribunais todos os maus cidadãos que ousarem desrespeitá-la, mas depois dos aplausos iniciais e das primeiras pressões já vão cedendo. E tem dois grupos, os que cedem. A maioria abre tudo de uma vez, ou quase tudo, e, para disfarçar, escreve no papel que aceita tudo: “com restrições”. Nas prática, significa apenas colocar um álcool em gel no balcão e cobrar máscara na cara do freguês. Fora isso, é a mesma aglomeração.

Mas há os que mantém a pose de inflexibilidade no cumprimento da quarentena, mas, sem alarde, vai abrindo para ônibus rodar com lotação máxima e permite funcionamento de lotéricas, lojas de construção e feiras. Daqui a pouco a cidade estará toda escancarada, mas a pose de fiscal implacável da quarentena não sai do discurso e das postagens.

Todos os líderes do Tocantins se enquadram num ou noutro padrão. Ou cedem de uma vez e assumem que tudo não passava de mero cumprimento protocolar para, entre outros motivos distantes desta crise sanitária, terem direito a benefícios fiscais com os decretos de calamidade, cuja calamidade é a desfaçatez de seus signatários; ou relaxam quietinhos, fingem que não estão sendo vistos e continuam com cara de valente.

As experiências desses 60 dias que deveriam ser de quarentena mostram que o tocantinense, o povo e suas autoridades — diga-se: como ocorre em todo o Brasil, não é algo exclusivo nosso —, não querem fazer um isolamento social à altura do que exige o combate à pandemia. Nas entrelinhas dos fingimentos que se vê é possível ler que acreditam que fazendo de conta que estão em confinados vão espantar a Covid-19, como se faz com os inconvenientes pernilongos. Mas esse vírus, que não liga para a ciência, clima, idade, gênero e crença, vai se assustar com a nossa estultice?

Por isso, o símbolo desse mal-sucedido lockdown, pela autenticidade da postura, é mesmo dona Dineia. Desde o primeiro momento ela sabia que o confinamento decretado fazia parte daqueles regramentos natimortos tão comuns no Brasil.

Sábia, essa dona Dineia.

CT, Palmas, 23 de maio de 2020.

Para quem não sofre de puritanismo agudo, segue o vídeo de Dona Dineia, sucesso de público e crítica:


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