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RAYLINN BARROS DA SILVA / Araguaína 61 anos: uma história em transformação

Segundo a historiografia didática, é considerado como o início do desbravamento do município – povoamento não indígena – o final do século XIX, mas precisamente a década de 1870 com a chegada de um migrante piauiense: João Batista da Silva, sua esposa Rosalina de Jesus Batista e filhos. Ele e sua família teriam se estabelecido às margens do Rio Lontra. À época, deram ao lugar a denominação de “Livre-nos Deus”, expressão popular que demonstrava o temor constante que havia de ataque de índios e animais selvagens.

João Batista e família são considerados – na leitura didática e oficial – os desbravadores da região. Dentre seus filhos, um teria se destacado: Tomás Batista. Sobre esse último, parte da tradição oral vinda de moradores mais antigos, à época, apontam-no como o verdadeiro fundador do povoado e não seu pai. Essa controvérsia não conseguiu ainda ser resolvida, como dito, a ausência de fontes documentais fragiliza uma interpretação mais segura sobre o primeiro processo de ocupação da região que depois se convencionou chamar de Araguaína. Acredita-se que após a chegada dessa primeira família, outras se deslocaram para a mesma região, ao fixarem no mesmo local das primeiras, esses povos, em homenagem ao rio que os margeava, “batizaram” o lugar de Lontra.

Antes de pertencer ao município de Filadélfia até a sua emancipação política em 1958, Araguaína pertenceu, como povoado, a dois municípios: primeiro São Vicente do Araguaia, atual Araguatins. Tempos depois, Boa Vista do Tocantins, hoje Tocantinópolis. Em razão do isolamento imposto pela ausência de estradas, condições geográficas e insalubridade do clima, o povoado teria passado por um longo período de estagnação, que teria durado até o ano de 1925 quando, segundo a tradição oral, teriam chegado à região novas famílias como as de Manuel Barreiro, João Brito, Guilhermino Leal e José Lira e João Batista Carneiro.

A história de Araguaína está em constante processo de transformação. Não é redundância afirmar que uma das características de Araguaína seja seu caráter transformador

RAYLINN BARROS DA SILVA É doutorando e mestre em História

Com a criação do município de Filadélfia, pela lei estadual nº 154 de 8 de outubro de 1948, cujo instamento ocorreu em 1º de janeiro de 1949, o povoado Lontra passou a integrar-lhe. No mesmo ano sua denominação foi mudada para povoado Araguaína, nome cuja etnologia provém de Araguaia, em homenagem ao rio Araguaia, que serviria posteriormente de limite entre o município de Araguaína e o município de Conceição do Araguaia, Estado do Pará.

Assim, pela lei municipal nº 86 de 30 de setembro de 1953, o povoado Araguaína foi transformado em distrito com a mesma denominação. Sua instalação ocorreu em 1º de janeiro de 1954. Essa década ficou marcada, também, pela chegada das primeiras religiões cristãs em Araguaína, sendo as primeiras: catolicismo, assembleianos, batistas e presbiterianos. O primeiro templo cristão edificado foi em 1952, a capela Sagrado Coração de Jesus, construída pelos padres orionitas, anos depois, em 5 de maio de 1957, transformada em paróquia de mesmo nome, sendo designado o padre orionita italiano Pacífico Mecozzi como seu primeiro pároco. Pela necessidade natural de um maior desenvolvimento da região, iniciou-se o processo que culminaria com a criação do município de Araguaína. A lei municipal nº 52 de 20 de julho de 1958, autorizou o desmembramento do distrito de Araguaína, fixando-lhe os limites.

Quatro meses após essa lei, finalmente, em 14 de novembro de 1958, pela lei estadual nº 2.125, foi criado o município de Araguaína, tendo sido instalado oficialmente em 1º de janeiro de 1959. Foi nomeado como primeiro prefeito Casimiro Ferreira Soares, que foi exonerado em 3 de outubro de 1960, sendo substituído por Henrique Ferreira de Oliveira. Ainda na mesma data foram realizadas as primeiras eleições municipais, sendo eleito para prefeito municipal, Anatólio Dias Carneiro, para vice-prefeito, Raimundo Falcão Coelho.

A história de Araguaína pode ser dividida em quatro momentos: os anos 1960/1970: teria proporcionado o desenvolvimento da cidade a partir da construção da BR-153 e o que a rodovia ajudou a trazer: novos moradores, mais atividades comerciais. A década de 1980, quando a cidade passou a ser reconhecida como polo agropecuário na região. A década de 1990 quando, após o desmembramento com Goiás e que deu origem ao Estado do Tocantins, a cidade se “reinventou”, a partir de então, como principal cidade do estado até a consolidação da nova capital, Palmas. E por último, os anos que se seguiram à década de 2000 em diante, quando Araguaína se consolidou como polo em saúde, educação e no setor de serviços na região. Ocorreu significativa valorização imobiliária na cidade e, ao atrair investimentos de várias regiões do país, se tornou polo entre o sul do Pará, sul do Maranhão e norte do Tocantins, transformando-se, naturalmente, em uma alternativa à capital.

Do ponto de vista político, pode-se dizer que Araguaína passou desde sua criação por três momentos do ponto de vista político: na década de 1960: período de estabilidade política, quando os mandatários completaram seus mandatos na íntegra. Da década de 1970 / 1980 até metade dos anos 1990: período de forte instabilidade política quando ocorreu uma alternância muito grande de administradores no comando do executivo municipal. Além disso, Araguaína teve um de seus prefeitos assassinados em pleno exercício do mandato: João de Sousa Lima, considerado como um dos mandatários mais populares da história da cidade, assassinado na noite de 1º de fevereiro de 1985, fato que gerou forte clamor popular à época.

Já do final da década de 1990 à atualidade, a cidade vem atravessando um período de estabilidade política. Nesse período, todos os mandatários conseguiram concluir seus mandatos. Vale destacar que na história política de Araguaína, desde 1954 quando assumiu o primeiro prefeito da cidade, dos 13 prefeitos eleitos de forma direta, apenas 8 conseguiram concluir seus mandatos, 5 não. Ao todo, Araguaína teve 2 prefeitos nomeados, 15 prefeitos entre interinos, vices, presidentes da câmara e interventores, além de seus primeiros dois prefeitos terem sido nomeados pelo governo de Goiás: Cassimiro Ferreira Soares (1954) e Henrique Ferreira de Oliveira (1959), além do primeiro prefeito eleito Anatólio Dias Carneiro que assumiu a prefeitura em janeiro de 1961.

O último senso apontou que a cidade possui mais de 150 mil habitantes, sendo a segunda maior população da unidade federativa, de acordo com estatísticas do IBGE de 2010. É um polo regional que se destaca nos quesitos comercial, agropecuária, educacional, de saúde e serviços. Nessa mesma época também, a década de 2010, teve início um processo de valorização imobiliária na cidade sem precedentes e que elevou a projeção econômica de Araguaína a um patamar jamais visto. Atualmente, Araguaína é um centro de referência em várias áreas e acredita-se, deverá ser por muito tempo a maior economia do estado, depois da capital.

Multiplicaram-se, sobretudo no setor de serviços, empreendimentos como hotéis, restaurantes e bares. Sobre esses últimos, se converteram em dos principais lazeres da cidade, servindo alimentos como sanduíches, bebidas e principalmente espetinhos, atribui-se à Araguaína a fama de cidade do happy hour expressão em inglês que significa: hora feliz. Ao que parece, essa “cultura” de restaurantes e bares da cidade “substituiu” uma lacuna até então aberta pela ausência do que, pelo país afora caracteriza o comércio das cidades de médio e grande porte: a presença de shoppings centers.

Ainda na década de 2010, novo processo de transformação da cidade, proporcionado novamente pela expansão da educação, e agora, a infraestrutura do município, surgimento de um parque ecológico: Cimba, além de uma avenida às margens do antigo lago azul, denominada de Via Lago, transformações na paisagem da cidade que provocaram mudança significativa no lazer de seus habitantes. Nessa mesma época, no setor do comércio, novos empreendimentos foram inaugurados na cidade, Araguaína passou a ter destaque na geração de empregos no estado.

Araguaína é uma cidade formada por mais de 140 bairros. Desses, alguns são geograficamente grandes como, por exemplo, o Bairro São João, no início da cidade, chamado de “Areias”, outros, menores e mais atuais como, por exemplo, o setor Alasca. A cidade possui ainda dois distritos, o Novo Horizonte e Pilões. Nos tempos atuais, considera-se inferir que dentre os maiores problemas da cidade de Araguaína talvez o maior deles seja a cidade ainda não conseguir conciliar desenvolvimento com planejamento. Num quadro populacional e geográfico de mais de uma centena de bairros, a cidade sofre duramente com a falta de planejamento o que faz com que a mobilidade urbana da cidade passe a ser duramente castigada. Na verdade, o crescimento de Araguaína, desde o seu surgimento foi desordenado, portanto, sem planejamento.

Destaca-se, ainda, nos últimos tempos em Araguaína, o surgimento de dois tipos de bairros: os planejados, frutos de loteamentos privados como também condomínios fechados, e que vem concentrando a aglomeração de famílias suficientemente mais favorecidas economicamente, como ainda os loteamentos públicos, frutos tanto da necessidade de moradia voluntária, quanto involuntária. Sobre esse último grupo, realocou-se moradores de outras áreas da cidade, geralmente dos bairros mais próximos ao centro para lugares os mais distantes possíveis, surgindo bairros praticamente desligados da cidade, como, por exemplo, o Setor Costa Esmeralda. Fazendo surgir em Araguaína um fenômeno já perceptível em outras grandes cidades do país: a segregação espacial, o que terminou por contribuir com o aumento, junto com o crescimento de outras áreas da cidade, dos índices de violência em Araguaína.

Como consta no título deste artigo de opinião, por que a história de Araguaína está em transformação? A história dessa cidade remonta ao final do século XIX, no percurso desse tempo, a cidade passou por várias fases de desenvolvimento. A história de Araguaína está em constante processo de transformação. Não é redundância afirmar que uma das características de Araguaína seja seu caráter transformador. Portanto, nas comemorações dos seus 61 anos de emancipação política, talvez seja esse o olhar que deve ser lançado sobre Araguaína: observá-la pelo seu lado transformador, cidade que possui seus problemas, sobretudo de planejamento e mobilidade, mas que recebe a todos com oportunidades e desponta como a mais importante cidade do estado depois da capital, uma boa alternativa à essa última, pode-se dizer.


RAYLINN BARROS DA SILVA
É doutorando e mestre em História pela Universidade Federal de Goiás
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