CLEBER TOLEDO
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CRÔNICA / Os cabides dos meninos

Os meninos saíram de casa. Quer dizer, meninos para mim e dona Sandra. Um já fez 28 e o outro 24. Não dá para acreditar que o tempo voou desse jeito. Me pego sempre questionando sobre o que perdi. Abaixei a cabeça para construir uma empresa e quando a ergui havia dois homens à minha frente. Num anacronismo, minha mente insiste em ver só dois meninos. Como passaram de crianças a adultos num piscar de olhos? Sobre esse interregno, surge aquela dúvida cruel de pai: priorizei demais os negócios, a profissão, as fontes, os leitores, os clientes? Sinto que poderia ter curtido mais aqueles garotos.

Agora vivemos, então, outra fase familiar, a do corte definitivo do cordão umbilical. Um se casou em julho do ano passado e outro decidiu morar com a namorada em julho deste ano. Em apenas 12 meses a gaiola ficou vazia. Dona Sandra e eu nos adaptamos bem. Na verdade, estamos aproveitando demais.

Nos casamos em 29 de fevereiro de 1992. Ela grávida. Assim, ficamos sozinhos somente até 22 de julho daquele ano, quando nosso mais velho viu o mundo pela primeira vez. Chegou nos braços da enfermeira de olhinhos arregalados, e, ao chamá-lo pelo nome, procurou curioso quem falava porque ouvira aquela voz conversando com ele todas as noites, por quase cinco meses, sem saber de quem se tratava. Em 28 de março de 1996 o outro estreou. Sim, porque já nasceu artista, de cabelos espetados feito punk e vermelhidão adornando partes da cabeça e do corpo. Com icterícia, um espetáculo à parte eram os banhos diários de sol com as coisas todas expostas. A casa ficou mais cheia com duas crianças, e mais bagunçada. O que o mais velho tinha de tranquilo, o mais novo, de levado.

Nessas últimas quase três décadas nossa vida girou em torno desses dois meninos e suas fases. Os garotos muito apegados aos pais deram lugar aos adolescentes, na medida certa, sem solavancos e marcas de dor que se arrastam pela vida, mas uma rebeldia natural e necessária para os conduzir ao amadurecimento. Claro, as alegrias e as frustrações, as gargalhadas e os choros. Família é isso. Então, passaram a ganhar independência, e o mundo. Tudo numa velocidade inacreditável.

Como eu dizia, nos adaptamos bem até demais. Desde quando entraram na juventude esperávamos por este dia – ainda que nunca passasse pela nossa cabeça que seria tão rápido. Sempre defendemos que o mais importante era que estivessem bem e, se possível, por perto. Estão muito bem e próximos o suficiente para almoçarem com os velhos todos os domingos e, volta e meia, aparecerem por aqui por um motivo ou outro. De quebra, mas não menos importante, nos deram as filhas que não tivemos e pelas quais somos completamente apaixonados. Então, tristeza para quê?

A minha animação foi enorme porque herdei o quarto deles, onde instalei o altar do jornalista, a redação. Deixei a sala para a dona Sandra, que sempre reclamava, com razão, da falta de privacidade e da forma espaçosa com que eu tomo conta do ambiente, e me vejo obrigado a concordar também com isso. Com os meninos nas casas deles, remodelei o quarto quase ao gosto: meu notebook, meus livros, dicionários, calendário e os apetrechos de gravação para o YouTube que sempre foram alvo do dedo apontado da esposa.

Para além do espaço, ganhei uma vista que é um sonho. Sou visitado diariamente duas vezes por casais de araras que passam tagarelando como se me dessem bom-dia e boa-tarde, contemplo os espigões erguidos por todo o centro de Palmas e na Graciosa nos últimos anos, a Estátua da Liberdade que nos dá um sentimento de mundo e o lago que desliza manso e silencioso. Quando quero serenar a alma, paro tudo e fico assistindo as águas correrem plácidas lá longe, com o sol se escondendo ao fundo no fim do dia, e, assim, lavo a minha mente de toda a agitação do mundo da política e dos problemas do dia-a-dia.

Nos meus flancos, camas de solteiro me trazem a presença dos meninos. Com elas aprendi a conviver, diante da deliciosa lembrança dos momentos alegres dos dois no quarto, um no game pelo computador e o outro sempre ao violão.

Porém, teve uma tarde que fui derrubado com toda a força por outro elemento da nova redação que até então passava despercebido, o guarda-roupas. Só via portas fechadas, o que não significa nada. Portas fechadas são apenas isso, portas fechadas. Até que sejam abertas e o passado, no caso ainda não tão distante, salta sobre você.

Procurava algo por aqui e inventei de abri-las. Naquele momento senti profundamente o que chamam de síndrome do ninho vazio. Ao me deparar com a fileira interminável de cabides desocupados e uma ou outra peça de roupas dos meus garotos que restam por aqui, meu peito se rasgou e fiquei longamente paralisado. Abatido pela ausência de algo que me era tão essencial e despertado para a dura realidade de que uma importante parte da minha vida se foi, não existe mais. Os cabides foram um traumático choque de realidade. Pela primeira vez tive uma abismal sensação de perda.

Tomou-me a vontade disparatada de correr o tempo de ré para ter de volta a época em que a agitação de suas vozes, de seus afazeres e o entra e sai do apartamento eram parte da nossa rotina agora tão pacata. Um desejo quase desesperador de ligar-lhes e clamar: voltem porque eu preciso de vocês!

Mas acionei a razão, lembrei-me da família que erámos, somos e sempre seremos, a despeito da enorme lacuna aberta neste apartamento, e optei por uma saída menos drástica. Peguei o celular e tasquei uma mensagem como numa garrafa jogada ao mar por um náufrago desesperado por socorro:

“Como vocês estão? Saudades… Amo vocês, e quero todo mundo aqui no domingo. Beijos, pai”.

Em resposta veio a certeza de que estará aqui a versão adulta das minhas crianças. Mas ainda assim são elas e continuarão comigo até o fim.

CT, Palmas, 4 de setembro de 2020.


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