Há quem diga que a felicidade mora na juventude, nos excessos, nas descobertas. Mas há um grupo de senhores — artistas, poetas, cantores — que desafia essa ideia com a leveza de quem dança com o tempo, a aprender e escutar o silêncio.
Sábado, após participar de um duelo esportivo no futebol “supermaster” e, bem próximo de completar a sexagésima sexta primavera, assistir ao programa especial alusivo aos 25 anos do talk show Altas Horas, comandado por Serginho Groisman, os convidados especiais Gil, Caetano, Ney, Ivete e Xande de Pilares — e a ausência/presença do querido Chico Buarque — abrilhantaram a noite tão especial para a música popular brasileira.
A noite foi agradável, a chuva dava o ar da graça, e o momento foi merecedor desta crônica.
Gilberto Gil, aos 83 anos, decidiu que 2025 seria o ano de sua despedida dos grandes palcos. Não por cansaço, mas por sabedoria. “Quero viver com menos compromissos, mais tempo para observar a vida, pensar em mim mesmo, na minha saúde, na minha velhice.” E quem melhor que ele para cantar:
• “Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá.”
• “O melhor lugar do mundo é aqui e agora.”
Caetano Veloso, também aos 83, não se despede. Ele se prepara. Com pilates, musculação e caminhadas ao som de K-pop, ele brinca: “A meta é estar tão bem quanto Ney Matogrosso.” Caetano ainda provoca o algoritmo com sua arte e sua filosofia:
• “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.”
• “De perto, ninguém é normal.”
• “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”
Chico Buarque, aos 80, passou por uma cirurgia delicada, mas dois dias antes subiu ao palco com Gil para cantar “Cálice”, como quem desafia o destino com poesia. Sua felicidade é discreta, mas profundamente presente. Ele já escreveu:
• “A felicidade morava tão vizinha que, de tolo, até pensei que fosse minha.”
• “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.”
• “As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo de que as coisas nunca mudem.”
E há Ney Matogrosso, o homem com H. Aos 83, ele é homenageado em museus, cinebiografias e livros. Mas não vive de passado. Lança disco novo, participa da curadoria de sua própria exposição e ainda dita tendências com seu corpo esculpido por disciplina e desejo. Ney é o grito que muitos ainda guardam na garganta.
• “Sou aquele mesmo hippie dos anos 60, que hoje apenas tem bens e dinheiro. Quero morrer com 100 anos, livre.”
• “Expressar o que se pensa e não seguir os ditames pré-estabelecidos é sempre transgressor. Eu sou assim e morrerei sendo.”
• “Não uso creminho para a pele. O segredo para me manter bem é muito rock’n’roll e estar apaixonado.”
Esses quatro senhores não são apenas ícones da música brasileira. São mestres da maturidade. Mostram que a felicidade não é um estado, mas uma escolha. Que envelhecer não é perder, é ganhar tempo para ser inteiro. Que o palco pode ser o mundo, o corpo, a memória.
E que, no fim das contas, o tempo é rei — mas a felicidade é sábia.
EDSON CABRAL
É cineasta, cronista e membro da Academia Palmense de Letras.
















