A natureza possui uma sabedoria intrínseca sobre o tempo que, frequentemente, escapa à sabedoria humana. A parábola do bambu chinês é, talvez, a tradução mais perfeita dessa virtude. Quando a semente dessa planta é depositada na terra, adubada e regada, absolutamente nada acontece na superfície durante o primeiro ano. O mesmo silêncio se repete no segundo, no terceiro e no quarto ano.
Para um observador apressado, o esforço do agricultor pareceria em vão. Contudo, em algum momento, um pequeno broto finalmente rompe o solo e, em apenas alguns meses, o bambu atinge espantosos vinte metros de altura ao longo dos meses seguintes.
O que explica esse salto fantástico? Durante os anos de aparente inatividade, a planta não estava adormecida; ela estava construindo um sistema de raízes subterrâneas vasto e profundo, forte o suficiente para sustentar o seu extraordinário crescimento. Essa dinâmica natural oferece uma metáfora urgente e necessária para a Administração Pública Brasileira.
Historicamente, a Administração Pública no Brasil sofre com a miopia do presente. A pressão por resultados rápidos e o calendário frequentemente transformam o Estado em um agente de transformação ansioso, que tenta puxar a economia para cima à força, implementando medidas paliativas que não se sustentam a longo prazo. No entanto, assim como o bambu exige raízes antes do caule, uma nação exige planejamento estrutural antes do espetáculo do crescimento econômico e social.
Embora o desenvolvimento econômico não brote espontaneamente do acaso, ele ganha uma força orgânica e natural quando o ambiente produtivo é devidamente preparado. Fatores como o nosso vasto potencial agromineral podem atuar como fortes propulsores, enquanto a ausência de segurança jurídica pode asfixiar qualquer avanço. A visão contemporânea exige, portanto, um desenvolvimento sustentável, alicerçado em ações sólidas que conectem as necessidades do hoje à segurança do amanhã.
Voltando à analogia, o período de maturação invisível do bambu equivale, na Administração Pública, à criação das bases fundamentais do Estado. São as reformas essenciais, a desburocratização inteligente, a capacitação constante, a garantia de segurança jurídica e o investimento contínuo em infraestrutura básica e educação. Essas ações, embora muitas vezes não rendam inaugurações grandiosas a curto prazo, formam o complexo sistema de raízes por onde a riqueza e o progresso irão fluir.
Nesta reflexão, é fundamental compreender que a Administração Pública não é a planta; o Estado é um jardineiro. Seu papel não é absorver toda a economia ou tentar forçar o crescimento de forma artificial, mas sim preparar a terra, regar e adubar, atuando como o principal facilitador do desenvolvimento sustentável.
A água e o adubo representam o fomento assertivo. De um lado, o setor produtivo necessita de um terreno fértil para prosperar. Isso se traduz em políticas de crédito bem desenhadas, um ambiente de negócios competitivo, estímulo à inovação tecnológica e um sistema tributário digital racional. O Estado garante que o empreendedor tenha as condições ideais para contratar, produzir e gerar riqueza.
Do outro lado, esse mesmo cuidado deve ser estendido ao Terceiro Setor. As organizações da sociedade civil organizada são vitais para alcançar as ramificações mais delicadas da população, onde o poder público, muitas vezes, não chega com a mesma capilaridade e agilidade. Ao adubar essas entidades com parcerias transparentes, repasses eficientes e apoio institucional, a Administração Pública nutre uma rede de proteção e desenvolvimento humano imprescindível para a coesão social e para o próprio exercício democrático.
O grande ensinamento do bambu chinês é que o desenvolvimento contínuo não é um ato de força, mas a consequência de um preparo persistente e focado. Quando a Administração Pública atua com previsibilidade, segurança jurídica, programando e executando as ações corretas, legais e justas dentro do tempo necessário, o desenvolvimento da nação deixa de ser um esforço exaustivo e passa a ser uma realidade orgânica.
Se as “raízes” do Estado forem sólidas e o fomento ao setor produtivo e social for perene, o Brasil não precisará de milagres econômicos ou sobressaltos — afinal, fenômenos artificiais não são sustentáveis. A evolução econômica ocorrerá de forma natural e acelerada, assim como o bambu em sua fase de esplendor. As empresas se expandirão, a inovação florescerá e a desigualdade será mitigada pelo trabalho harmonioso entre o Estado e a sociedade civil organizada.
A excelência na Administração Pública, portanto, reside na maturidade de respeitar o tempo das coisas. Não é ser afoito na tomada de decisões sem planejamento, tampouco adiar ações essenciais. É ter a sabedoria e a coragem de realizar o trabalho invisível hoje, com a certeza inabalável de que ele é o único caminho possível para sustentar a grandeza do amanhã.
JÚLIO EDSTRON SECUNDINO SANTOS
É advogado da Minetax Consultoria Tributária, graduado em Direito pela Universidade Presidente Antônio Carlos (2008), mestre em Direito pela Universidade Católica de Brasília (2014), doutor em Direito pelo UniCEUB e pesquisador do Centro Universitário de Brasília. Ex-assessor especial no Tribunal de Contas do Estado do Tocantins. Professor do curso de Direito da Fbr. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Público, atuando principalmente nos seguintes temas: Terceiro Setor, Direito Tributário, direitos fundamentais, educação em direitos humanos, cidadania e Seguridade Social. Membro dos grupos de pesquisa Núcleo de Estudos e Pesquisas Avançadas do Terceiro Setor (NEPATS), Políticas Públicas e Juspositivismo, Jusmoralismo e Justiça Política do UniCEUB. Editor Executivo da REPATS.
E-mail: [email protected].















