A lágrima sempre me pareceu a forma mais honesta de linguagem que existe. Mas, ultimamente, tem despertado em mim momentos de reflexões sobre esse fenômeno praticamente inexplicável para o ser humano. Talvez seja pelo fato de, nos últimos tempos, ter passado em clínicas de radioterapia e quimioterapia e mesmo no dia a dia presenciado muitos momentos esse fenômeno acontecer.
A lágrima traz a primeira manifestação de sentimentos quando nascemos. Não faz alarde, não pede licença, não se preocupa com gramática. Simplesmente vem. E quando vem diz tudo.
Há quem pense que chorar é sinal de fraqueza, mas talvez seja justamente o contrário. É preciso coragem para permitir que o sentimento transborde. A lágrima nasce quando o coração já não consegue mais guardar o que sente, seja alegria demais, dor demais, amor demais… ou até a ausência de tudo isso.
Já reparei que existem lágrimas diferentes. As de alegria, por exemplo, têm um brilho curioso, quase leve. Elas aparecem em momentos inesperados: uma conquista depois de tanta luta, um reencontro, uma notícia boa que chega como quem abraça. Nessas horas, o rosto até tenta sorrir, mas os olhos resolvem falar por conta própria.
Mas há, também, as lágrimas densas, silenciosas, que caem devagar. São as da saudade, das despedidas, das palavras não ditas. Essas não pedem testemunha. Preferem a companhia discreta de um travesseiro ou de um olhar perdido no nada. Carregam um peso que não se mede, apenas se sente.
E existem aquelas que misturam tudo: um pouco de alegria, um pouco de dor. Como nos amores. Porque amar também faz chorar, às vezes de felicidade, às vezes de ausência.
O curioso é que, mesmo quando ardem, essas lágrimas ainda têm algo de doce. Talvez porque lembrem que, em algum momento, o coração esteve cheio.
A lágrima não escolhe ocasião nobre. Ela pode surgir no meio da rotina, no trânsito, diante de uma lembrança qualquer ou de uma música que toca sem aviso. É democrática: visita a todos, sem distinção.
No fim das contas, a lágrima é isso, um gesto simples e profundo de humanidade. Ela traduz aquilo que a palavra não alcança, revela o que tentamos esconder, e, de alguma forma, alivia o que pesa.
Talvez por isso, depois de chorar, a gente nunca seja exatamente o mesmo. Como se cada lágrima levasse um pouco do excesso e deixasse espaço para continuar.
“Quem tem ouvidos que ouça, quem tem olhos que veja!
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
[email protected]















