A divisão colonial que separava a casa-grande e a senzala mudou de nome, mas manteve intactas a exclusão e o privilégio. O tratamento dispensado a cada classe social revela-se nos detalhes mais sutis do cotidiano. O jovem rico que comete um “deslize” no trânsito, é apenas um “menino confuso”, que precisa de orientação e acolhimento. O jovem periférico que pratica o mesmo “deslize”, é rotulado como “criminoso”, recebendo o peso desproporcional do rigor da lei e do julgamento público.
O reflexo dessa história não está guardado nos museus; ele se repete diariamente. Recentemente, uma desembargadora negra foi interpelada em um supermercado de Mato Grosso, para prestar informações acerca de valores e localização de produtos. Fica evidente que jamais passou pela cabeça da outra consumidora que aquela mulher negra fosse uma magistrada fazendo compras, sendo estruturalmente aceita apenas a hipótese de ser funcionária do estabelecimento. Aqui em Palmas, determinada portaria de um órgão público impediu a entrada de uma prestadora de serviços vestindo leggin 3/4 e camiseta, mas permite – diariamente – o acesso de microssaias e decotes que se encontram em algum meridiano corporal e viram cinto.
No Brasil, o elevador de serviço ganhou status de portal interdimensional, capaz de transformar o trabalhador em um ser invisível antes mesmo que a porta se feche. Para sanar essa grande problemática social, dada a ausência da antiga porta dos fundos destinada à criadagem, a casa-grande, hoje instalada nos prédios, criou o elevador de serviço. Foi aí que a engenharia do preconceito se especializou em criar “regras de convivência” para garantir que os corpos fiquem distribuídos em seus devidos cercados sociais, sem possibilidade de contato físico. Ora, elevador de serviço deveria ser para transportar cargas e não uma caixa metálica destinada à segregação humana!
Essa demarcação territorial atinge o ápice quando o comércio popular, o transporte de massa ou as ciclovias em torno do parque da cidade se aproximam perigosamente das casas-grandes verticais. O argumento, devidamente manipulado, é o potencial “aumento da criminalidade”. O pavor real, contudo, é a quebra do isolamento acústico e social que mantém a senzala a uma distância segura, apenas o suficiente para que não haja atraso dos trabalhadores no dia seguinte, quando será possível à babá uniformizada sentar no banco que circunda o parquinho privado, compartilhando momentaneamente o espaço com a moradora de blazer de linho cru, sua patroa.
A hipocrisia da nossa estrutura colonial encontrou o seu habitat perfeito nas redes sociais. Nos vídeos de “vlog da minha rotina”, a influenciadora – majoritariamente loira, magra e botonizada – agradece a Deus pelo dia abençoado enquanto filma, de relance, as mãos da copeira negra que serve o café da manhã. A trabalhadora, oriunda da senzala moderna, vira apenas um elemento do cenário, um eletrodoméstico humano que não recebe menção na legenda e nem o direito de ser conhecida pelo próprio nome. É uma figurante sem cachê na senzala gourmetizada: o trabalho continua anônimo, mas agora gera engajamento e curtidas para a empregadora.
O verdadeiro pânico da casa-grande contemporânea acontece quando a senzala resolve usar a caneta como ferramenta de ingresso à Universidade. É fascinante notar o franzir de testas quando o assunto gira em torno das cotas sociais e raciais. Na casa-grande é consenso que “as cotas dividem o país”, omitindo de forma deslavada que o país cresceu rachado pelo muro da exclusão. Mais uma vez argumentos forjados entram em campo, sendo o mais usual a “perda de qualidade do ensino superior”, escamoteando o medo real de admitir que o filho dividirá a mesma sala com o filho da empregada doméstica. Para a casa-grande, cota não é reparação histórica; é uma invasão no seu feudo de oportunidades exclusivas.
O tempo passa e a modernidade brasileira é apenas uma maquiagem barata sobre uma estrutura colonial. Continuamos a saudar os sapatos de cromo alemão e a desconfiar das sandálias de dedo, comprovando que o chicote mudou de formato, mas o alvo do preconceito permanece rigorosamente o mesmo. Não é à toa que até os estrangeiros, mesmo fazendo só turismo no Brasil, se acham no direito de fotografar e filmar um menino negro em um trem, e enviar mensagens racistas aos seus compatriotas, sugerindo a possibilidade de levá-lo como escravo. Não bastasse, dada a profusão de carne negra, cogita levar uma menina na mesma condição, para que pueda cuidar de sus nietas. A rigor, a discriminação continua sendo fomentada pela casa-grande, julgando ser uma benesse a senzala possuir Wi-Fi.
Mudar o rumo dessa história exige criar crianças que tenham alergia a esse tipo de barreira invisível. Se os pais continuam justificando o isolamento como “segurança” e a exclusão como “estilo de vida”, o futuro não é nada promissor. Precisamos educar as crianças para que elas recusem o papel de herdeiras do preconceito estrutural, o que é incompatível com a prática diária de pais tratando com desdém o motorista de aplicativo e o porteiro do colégio.
Precisamos ensinar aos filhos da casa-grande que o elevador de serviço é uma aberração moral e que a cor da pele de alguém não define o seu caráter. Educá-los para o respeito real significa fazê-los entender que o topo do mundo não deve ser um camarote privado, mas um espaço que pode ser compartilhado, se houver oportunidades para todos. Só assim, criando uma geração que sinta vergonha do privilégio injusto, conseguiremos finalmente queimar os restos dessa estrutura colonial que teima em arder.
ROSANNA MEDEIROS FERREIRA ALBUQUERQUE
É procuradora do Estado aposentada.















