Há homens que atravessam a vida inteira sem nunca descobrirem quem são, até que alguém lhes entrega uma chave: um cargo, um selo, uma assinatura que decide destinos. Nesse instante, não é o mundo que muda; é o espelho que se aproxima do rosto e revela, ampliadas, as rugas da vaidade e as cicatrizes da ética que nunca foi muito exercitada.
O poder é esse zoom indiscreto, que não inventa monstros, apenas aumenta o tamanho das sombras que sempre estiveram ali. Na repartição acanhada, no gabinete universitário, no condomínio de muros altos, repetem‑se as mesmas cenas de um teatro antigo.
O sujeito cordial, que ontem cumprimentava o porteiro pelo nome, hoje passa apressado, distraído de propósito, carregando na pasta o prazer recente de poder dizer “não” a quem precisa de um “sim”. Sua coragem cresce apenas na proporção da dependência alheia: é duro com os frágeis, mas curva a espinha diante de qualquer autoridade que o possa promover.
Há também os que recebem o mesmo poder e seguem outro caminho silencioso. Continuam a assinar papéis, mas escrevem o próprio nome como quem se lembra de que um dia também esperou na fila, também pediu favor, também foi pequeno diante de algum balcão.
Esses usam a caneta como quem segura uma balança: sabem que cada gesto inclina o prato de alguém, e por isso medem as palavras, escutam devagar, recusam a embriaguez da obediência fácil. Em vez de construir degraus sobre as costas dos outros, constroem pontes que os igualam por alguns instantes.
Entre o tirano de corredor e o justo discreto há todo um continente humano, feito de contradições, medos e desejos. O poder não o cria nem o destrói; apenas retira a embalagem social que nos protege e nos disfarça.
Talvez por isso a frase atribuída a Lincoln resista ao tempo: mais do que conselho político, ela é aviso íntimo, sussurrando ao ouvido de cada um que sonha mandar em alguém.
Porque, no fim, o verdadeiro exame de caráter não acontece nos grandes palácios, mas nos pequenos reinos de cada dia: na forma como tratamos o aluno inseguro, o servidor sem prestígio, o trabalhador que depende da nossa assinatura para ter o salário em dia.
É nesse instante miúdo, quase invisível, que a vida nos pergunta, sem retórica: e agora que você pode, o que escolhe ser?
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra
















