O Brasil convive com números persistentes e graves de violência contra mulheres e crianças. E boa parte dessas agressões nasce e se mantém em um mecanismo conhecido: a naturalização. “Foi brincadeira”, “não foi nada”, “vocês estão exagerando”. É nesse terreno simbólico, onde a agressão vira piada, que a violência ganha permissão social para continuar.
Por isso, preocupa a circulação de vídeos em que mulheres e crianças aparecem em cenas de agressão física e/ou psicológica (chutes, quedas forçadas, gritos, perseguições corporais), embaladas como humor. A intenção declarada pode ser “diversão”, mas o gesto não é neutro, pois ele comunica que o corpo do outro pode ser controlado, derrubado, constrangido, e que isso pode ser motivo de riso.
Esse debate não precisa (e nem deve) se reduzir a julgamentos morais sobre intenções individuais. A questão central é coletiva: qual mensagem a sociedade aprende quando a agressão vira entretenimento? Em um país marcado por feminicídios, violência doméstica e altos índices de agressão contra crianças e adolescentes, frequentemente dentro de casa e por pessoas próximas, relativizar a agressão reforça exatamente a cultura que se pretende enfrentar.
A pesquisa “Caracterização de homens autores de violência doméstica contra mulheres” (Victor dos Santos Valadares; Sérgio Eduardo Silva de Oliveira; Valeska Zanello), baseada na análise de 559 formulários de acolhimento de homens encaminhados a um serviço especializado no Distrito Federal (NAFAVDs, 2018–2019), ajuda a entender por que esse “humor” é tão perigoso.
O estudo mostra que a violência psicológica aparece como a mais perpetrada e que a violência costuma operar em continuum, combinando formas (psicológica, moral e física) que se reforçam mutuamente. Um achado importante confronta estereótipos convenientes. Os autores não encontraram diferenças estatisticamente relevantes nos tipos de violência conforme raça/cor, nem confirmaram a ideia de que violência seria “problema de baixa escolaridade”. Em outras palavras, a violência não é exclusividade de um grupo social, ela se alimenta de desigualdades de gênero e de processos de socialização masculina que normalizam domínio, controle e desresponsabilização.
É justamente aí que a “brincadeira” faz estrago. A violência raramente começa “com cara de crime”. Muitas vezes, ela se instala no riso que minimiza, na cena que relativiza, na repetição de gestos que passam a parecer normais. Quando isso vira conteúdo, o inaceitável se torna “comum”, e a agressão perde seu significado político, saindo do campo da responsabilidade social.
O problema se agrava quando esse tipo de postagem parte de agentes públicos. Não porque não tenham vida privada, mas porque seus atos carregam um efeito pedagógico e institucional. Sinalizam o que é aceitável, o que “não dá nada”. E, para vítimas reais de violência, ver agressão tratada como piada pode reforçar silenciamento, medo e culpa.
Isso não é censura, nem patrulhamento ideológico. É responsabilidade ética, sobretudo quando há crianças envolvidas, porque expô-las em situações de agressão, ainda que sob a justificativa de brincadeira, contraria a lógica de proteção integral e cuidado que a sociedade brasileira afirma defender em vasta legislação.
O debate que se impõe, portanto, não é sobre “cancelar” pessoas, mas sobre amadurecer como sociedade. Em tempos de redes sociais, em que tudo parece virar conteúdo, é urgente questionar-se antes da postagem: isto deve virar entretenimento? Há limites éticos claros quando a integridade física e simbólica de mulheres e crianças está em jogo. Rir da violência não a torna menos violenta, apenas a torna mais tolerável. E isso é exatamente o que precisamos recusar.
ADELAIDE GOMES DE ARAÚJO FRANCO
É mestra em Desenvolvimento Regional e políticas públicas (UFT), com pós-graduações em Direito e Processo Constitucional (UFT); Direito das Mulheres (Faculdade I9 educacional); Direitos Humanos (Faculdade I9 educacional); Direitos e Políticas Públicas (CESAF-MPTO); Inovações Educacionais para a Prática Docente (ESMAT). Servidora no Ministério Público do Estado do Tocantins (atual), atua como entrevistadora de coleta de Depoimento Especial de Crianças e Adolescentes vítimas ou testemunhas de violência no Grupo Gestor Multidisciplinar do TJTO, desde 2016, e como técnica em atendimento a mulheres vítimas de violência doméstica no Grupo Gestor Multidisciplinar do TJTO, desde 2022.















