A fantasia é essa: um presidente do Norte, sentado atrás de uma mesa excessivamente lustrosa, decide que um país tropical pode ser rebaixado a campo de extração — como quem transforma um povo em poço artesiano.
A cena é vendida em frases de efeito, como se fosse simples “colocar ordem” na casa dos outros, apagar o rosto de uma nação e deixar apenas o mapa geológico pendurado na parede. No subsolo, porém, o petróleo é mais paciente que os discursos; ele sabe que cada gota carrega o peso de séculos de invasão, tutela, golpes, empréstimos, condicionalidades, sanções, “ajuda humanitária”, concessões.
Chamam isso de plano, mas o cheiro é antigo: cheiro de protetorado. A bandeira continua a mesma, o hino continua o mesmo, a Constituição segue empoeirada nas prateleiras. O que muda é quem decide para onde escorre o óleo negro — e esse alguém já não fala espanhol nem dorme em Caracas.
O protetorado moderno não precisa de soldados marchando em praça pública. Basta uma assinatura num contrato, uma cláusula de “segurança energética”, um fundo de compensação para empresas estrangeiras que choram perdas como se fossem vítimas — e não cúmplices da ruína.
O que se protege, afinal, não é o povo, mas o fluxo: fluxo de barris, de dólares, de navios. Protege-se a pressão constante da bomba que suga o futuro por um cano estreito.
Na superfície, inventam-se narrativas para consumo externo: derruba-se um ditador, celebra-se a democracia, promete-se reconstrução, empregos, investimentos e estabilidade.
Como se a história viesse em embalagem de supermercado, com rótulo colorido e data de validade impressa.
A reconstrução, porém, vira pretexto para nova dependência. O país, fatiado em blocos de concessão, passa a existir como linha de planilha, como ativo volátil, como aposta no mercado de futuros.
O que foi Estado transforma-se em ativo; o que foi povo, em risco; o que foi soberania, em nota de rodapé num relatório de “risco político”.
Chamam isso de pragmatismo, realismo, geopolítica — nomes elegantes para um velho gesto de apropriação, agora vestido de terno, PowerPoint e discursos sobre liberdade.
A palavra “proteção” retorna como disfarce: protege-se a “estabilidade regional”, a “livre navegação” e o “fornecimento global”. Nunca a dignidade de quem vive sobre o solo que se quer perfurar.
Protetorado, aqui, é eufemismo para tutela perpétua: o país que não pode decidir, a economia que não pode errar por conta própria, o governo que só governa se couber no cálculo dos credores. Ainda assim, sob cada poço, há memória: de quando a terra não era cifra, de quando a riqueza não era promessa feita em outra língua, de quando a palavra “nossa” ainda tinha peso.
Talvez seja essa memória — teimosa, subterrânea — que assuste tanto os que sonham administrar o mundo como se fosse um condomínio fechado, com guarita, cerca elétrica e manual de conduta para vizinhos indóceis.
Um dia, o petróleo acaba. A soberania, quando reivindicada, costuma voltar com mais força do que o óleo: volta em canto, em protesto, em insônia coletiva — como se um povo inteiro despertasse do transe e se recusasse, enfim, a ser tratado como mero reservatório.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.
















