O presidente que comanda o maior arsenal do planeta acordou um dia e decidiu que um pequeno país caribenho é uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança dos Estados Unidos. No papel timbrado da Casa Branca, Cuba aparece cercada de adjetivos: regime comunista, porto de terroristas, base de espiões, laboratório de ideias malignas.
No mapa, porém, continua sendo aquela estreita faixa de terra que cabe inteira num canto do Caribe, cercada há décadas por embargo, sanções e tentativas de asfixia. A nova ordem executiva de Donald Trump declara uma “emergência nacional” porque o governo cubano supostamente apoia países hostis, acolhe grupos como Hezbollah e Hamas e abriga instalações de inteligência russas e chinesas capazes de “roubar segredos” dos EUA.
O texto vai além: acusa Havana de espalhar comunismo pelo hemisfério, desestabilizar a região por meio da migração e da violência e violar direitos humanos dentro da ilha. Diante desse quadro dramático, o presidente anuncia o remédio: tarifas extras sobre qualquer país que se atreva a vender um barril de petróleo a Cuba.
A superpotência, que abastece o mundo inteiro com armas e dólares, se apresenta como vítima indefesa do combustível que entra num país de 11 milhões de habitantes. Há algo de profundamente irônico nesse enredo. Durante décadas, quem invadiu praias cubanas, patrocinou tentativas de golpe e manteve um embargo que atravessou gerações foram justamente os Estados Unidos, não o contrário.
A famosa Baía dos Porcos, nos anos 1960, não foi uma excursão de férias, mas uma operação apoiada por Washington para derrubar o governo recém‑instalado em Havana. Desde então, a ilha vive sob permanente cerco econômico e diplomático, enquanto sucessivos presidentes norte‑americanos assinam documentos parecidos, renovando emergências que jamais se encerram.
Emergência virou rotina; ameaça, um substantivo pronto que se cola a cada adversário de ocasião. Ao classificar Cuba como foco de terrorismo e epicentro da desestabilização hemisférica, a ordem de Trump presta menos um serviço à segurança e mais à política.
O rótulo funciona bem no cenário doméstico, alimenta discursos eleitorais, agrada a grupos que nunca aceitaram a revolução cubana e ajuda a justificar tarifas e pressões sobre terceiros países. No mundo real, porém, a correlação de forças é brutalmente assimétrica: de um lado, uma potência militar espalhada em bases pelo globo; de outro, uma ilha que mal consegue comprar peças de reposição porque bancos e empresas temem as sanções de Washington.
Quando o gigante diz ter medo do anão, convém perguntar se o medo é de fato de um ataque, ou do mau exemplo de um país que insiste em não se alinhar. A história recente mostra que, apesar do isolamento, os cubanos aprenderam a defender com unhas, dentes e criatividade a soberania que conquistaram a duras penas.
Nas praças de Havana, cada nova sanção vinda do Norte é recebida com a mistura conhecida de indignação, cansaço e orgulho ferido. Ao decretar mais uma emergência contra a ilha, Trump talvez não perceba que reafirma, involuntariamente, a centralidade simbólica daquele pequeno território cercado de mar e de tentativas de controle.
No fim das contas, a crônica revela uma inversão curiosa: para neutralizar a “ameaça extraordinária” de Cuba, a superpotência precisa lembrar ao mundo, todos os dias, o quanto se sente ameaçada por uma ilha que não se ajoelha.
Não será um pretexto para invadir essa ilha caribenha!
Como pode?
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.
















