São filas de homens exaustos atravessando o rio como quem atravessa um espelho rachado: de um lado, a bandeira azul‑celeste; do outro, a promessa barata de um salário em reais e um colchão num alojamento qualquer.
Não é épico, não é aventura: é êxodo, esse velho nome bíblico dado àquilo que hoje se chama “ajuste fiscal”, “reforma trabalhista”, “competitividade das economias regionais”.
No papel brilhante dos relatórios, o governo celebra o déficit zero, aplaudido pelo Fundo Monetário Internacional; na terra vermelha de Misiones, a colheita de homens vale menos que a colheita de uvas e maçãs no outro lado da fronteira.
O campo argentino, antes pontilhado de pequenos produtores, vai sendo varrido por uma política que corta subsídios, estrangula programas sociais, desmonta obras públicas e larga comunidades inteiras à própria sorte.
Cada linha de crédito suprimida, cada tarifa liberada, cada benefício eliminado empurra famílias para ônibus noturnos rumo a Caxias do Sul, onde a promessa inclui transporte, comida, cama e um dia de trabalho que, mesmo duro, paga mais que a temporada inteira de esperança na velha chacra.
Nesse roteiro, o “mercado livre” aparece como personagem principal, mas o protagonismo real é do medo: medo de não alimentar os filhos, de não pagar o gás, de ver a escola fechar.
Enquanto isso, aqui deste lado, há brasileiros que transformam essa tragédia em peça publicitária de rede social.
Repetem gráficos, jargões, mantras contra o “estatismo”, celebram o superávit conquistado à base de 300 mil empregos formais a menos, 18 mil empresas fechadas e direitos trabalhistas triturados até permitir jornadas de 12 horas e greves quase impossíveis.
Falam da queda da inflação como se ela enchesse panela, como se o preço da macroeconomia justificasse o vácuo na mesa de quem vive de salário mínimo ou de um benefício cortado pela tesoura ideológica do governo.
É a estetização da miséria: enxergar “coragem liberal” onde há apenas o velho experimento de sacrificar corpos concretos em nome de abstrações financeiras.
A negação da realidade tornou‑se um projeto político
Para defendê‑lo, é preciso silenciar os relatos dos que cruzam o rio, invisibilizar as greves que paralisam portos e cidades, desqualificar sindicatos, movimentos sociais, qualquer voz que ouse dizer que o milagre não chegou à periferia de Rosário nem às vilas operárias do conurbano.
A narrativa oficial se alimenta de comparações superficiais, de memes que opõem “ordem” a “caos”, “liberdade” a “populismo”, como se a liberdade pudesse florescer no terreno salgado pela precarização e pelo medo permanente do desemprego.
A miséria, transformada em “custo necessário”, deixa de ser escândalo moral para virar variável de planilha, ruído aceitável na curva de aprendizagem de um governo experimental. Mas a fronteira não lê manuais de economia. Ela lê passos, malas, ausências.
Entre 400 e 500 pessoas por dia atravessam de “Misiones” (entram pela fronteira) para o Brasil, muitas deixando esposas e filhos para trás, convertendo o lar em lembrança e a pátria em saudade paga em prestações de diária agrícola.
O que alguns chamam de “ajuste” tem rosto: é o rosto queimado de sol de quem se pendura em um caminhão às cinco da manhã, é a coluna que dói, é a escola que perde alunos porque o pai está no outro país colhendo fruta que não vai comer.
Nenhuma thread de rede social consegue apagar esse dado elementar: quando um modelo econômico força o povo a migrar em massa para sobreviver, não se trata de escolha empreendedora, mas de violência estrutural.Talvez o maior sintoma da crise não seja apenas a pobreza material, mas a pobreza de empatia.
Quando setores brasileiros usam a experiência argentina como laboratório ideológico, relativizam a dor alheia em nome de uma fantasia de “choque liberal” que, aplicada aqui, atingiria os mesmos alvos: aposentados, pessoas com deficiência, trabalhadores rurais, jovens precarizados, a classe média em erosão.
A fronteira sul torna‑se, assim, um espelho político: de um lado, o experimento radical que converte direitos em “privilégios” descartáveis; do outro, quem aplaude à distância, seguro de que nunca será o próximo da fila com a mochila nas costas.
Essa crônica termina onde começa o jornal da noite: com uma estatística seca sobre inflação, dólar, risco‑país.
Lá não cabem as mãos calejadas que empurram a catraca da balsa em Alba Posse, nem as horas extras que agora podem se estender até 12 horas sem que se chame isso pelo nome antigo, exploração.
Entre a manchete e a vida real, fica a pergunta que insiste: quantos corpos um projeto ideológico está disposto a atravessar antes de admitir que o mercado não é uma divindade, e que nenhum superávit vale o preço de transformar um país inteiro em zona de expulsão de seus próprios trabalhadores?
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.
















