O Tocantins atravessa um momento de redefinição de sua identidade econômica, transcendendo a vocação agrícola para se firmar como um santuário de minerais estratégicos. Dados abertos da Agência Nacional de Mineração (ANM) revelam que o subsolo tocantinense deixou de ser uma promessa para se tornar um dos protagonistas da nova ordem mineral brasileira.
Entre 2020 e 2025, o Tocantins registrou um salto sem precedentes no número de processos minerários, solicitados junto a Agência Nacional de Mineração (ANM) sinalizando que a “última fronteira do Matopiba” agora também brilha com o reflexo de metais preciosos e elementos essenciais para a alta tecnologia mundial.

A densidade dessa expansão é medida pelo rastro de investimentos e pela complexidade dos novos requerimentos: o volume de processos minerários ativos na ANM cresceu de forma geométrica nos últimos cinco anos. Esse fenômeno é o resultado direto de um mapeamento geológico que identificou no Tocantins uma diversidade mineral raramente vista em outras unidades da federação.
O Tocantins deixou de ser apenas um corredor de passagem para se tornar um hub de exploração onde a segurança jurídica e o potencial das jazidas atraem desde mineradoras juniores até gigantes globais de capital aberto.
No topo da pirâmide de valor, o ouro reafirma sua hegemonia como o grande catalisador de riqueza imediata para o estado. Projetos de vulto em municípios como Almas e Monte do Carmo transformaram o perfil geoeconômico local, elevando o Tocantins a um patamar de destaque na produção de metais preciosos no Brasil.
A precisão dos dados da ANM mostra que o ouro não é apenas o líder em valor de produção comercializada, mas o principal responsável pela robustez da arrecadação da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) em solo tocantinense.
Contudo, a verdadeira “joia da coroa” para o futuro econômico reside nos chamados minerais críticos, indispensáveis para a transição energética e a descarbonização global. O estado tem revelado um potencial latente para o lítio e o cobre, elementos vitais para a fabricação de baterias e condutores de veículos elétricos.
O aumento exponencial de requerimentos de pesquisa para esses minerais coloca o Tocantins na vanguarda da sustentabilidade, permitindo que o estado participe ativamente da cadeia produtiva que sustenta as tecnologias verdes do século XXI.
Somando-se a esse cenário de alta tecnologia, a descoberta de depósitos de Terras Raras no Tocantins posiciona o estado em uma vitrine geopolítica internacional. Estes 17 elementos químicos, fundamentais para a indústria aeroespacial, eletrônicos de precisão e defesa nacional, são escassos e altamente disputados no mercado global. A presença desses minerais de altíssimo valor agregado em território tocantinense é um divisor de águas, atraindo olhares de potências tecnológicas que buscam diversificar suas fontes de suprimento para além da dependência asiática.
Impacto Financeiro e Arrecadação (CFEM)
Financeiramente, o impacto desse movimento é cristalino na arrecadação da CFEM:
- 2024: Marca histórica de R$ 30,2 milhões recolhidos.
- 2025 (Projeção): Crescimento de 17%, aproximando-se dos R$ 36 milhões.
Esse fluxo de recursos injeta fôlego novo nos cofres municipais, permitindo que cidades antes dependentes de repasses federais passem a investir em infraestrutura, saúde e educação com os royalties gerados por essa nova elite mineral de alto valor.
No âmbito da segurança alimentar, o Tocantins também se destaca com a produção de insumos para fertilizantes, como o fosfato e o calcário. Enquanto o calcário atua como o motor silencioso da produtividade agrícola regional corrigindo o solo do Cerrado, as novas pesquisas de fosfato e potássio visam a soberania nacional em nutrientes.
A utilização dos remineralizadores de solo abundantes em Monte Santo, no Tocantins, representa o elo definitivo entre a soberania mineral e a autossuficiência do agronegócio brasileiro, ao converter o patrimônio geológico local em uma espécie de “poupança de fertilidade” para o Cerrado. Ao contrário dos fertilizantes sintéticos convencionais, altamente voláteis e dependentes de importações, o pó de rocha tocantinense oferece uma liberação gradual e sistêmica de nutrientes, restaurando o equilíbrio mineral da terra e promovendo uma agricultura de regeneração que garante a segurança alimentar das futuras gerações.
Essa simbiose entre o subsolo de Monte Santo e as lavouras do Matopiba não apenas reduz custos logísticos, mas consagra o Tocantins como o coração estratégico de uma produção de grãos mais resiliente, sustentável e, acima de tudo, genuinamente brasileira. Essa integração entre mineração e agronegócio cria um ecossistema econômico resiliente, onde o subsolo fornece a base necessária para que a superfície continue batendo recordes de produtividade em grãos.
A infraestrutura logística do estado, potencializada pela Ferrovia Norte-Sul e pela hidrovia Araguaia-Tocantins, funciona como o sistema circulatório que viabiliza a competitividade desses minérios caros. O escoamento eficiente de concentrados de ouro e minerais críticos garante que as riquezas do Sudeste e Centro-Norte tocantinense cheguem aos mercados globais com custos operacionais reduzidos.
A evolução do setor também se reflete na qualidade técnica e na responsabilidade ambiental. Observa-se uma transição nítida da exploração rudimentar para uma mineração industrial de alta tecnologia, que utiliza inteligência artificial no geoprocessamento e métodos de lavra que minimizam o impacto no Cerrado. Esse amadurecimento operacional é fundamental para atrair investidores focados em critérios ESG (Ambiental, Social e Governança).
Municípios como Arraias, Natividade e Dianópolis emergem como polos dessa nova economia, onde o emprego gerado pela mineração estratégica possui salários médios significativamente superiores à média estadual. O efeito multiplicador do setor mineral é visível no fortalecimento da rede hoteleira, no setor de serviços e na qualificação profissional da mão de obra local.
Além do retorno financeiro direto, o protagonismo mineral do Tocantins fomenta um ambiente de inovação acadêmica e pesquisa científica. Parcerias entre mineradoras e instituições de ensino começam a florescer, focando no estudo da verticalização mineral — o processo de transformar o minério bruto em produtos de maior valor dentro do estado.
Portanto, os dados da ANM pintam o retrato de um estado que soube decifrar as demandas do mercado global e transformá-las em oportunidade local. A convergência entre o ouro, os minerais críticos e as terras raras colocam o Tocantins em um patamar de importância estratégica para o Brasil e para o mundo.
O brilho que emana do solo tocantinense hoje não é apenas o reflexo do metal, mas o sinal claro de um estado que aprendeu a converter seu patrimônio geológico em um motor de desenvolvimento social, tecnológico e econômico sem precedentes. O que os dados da ANM revelam, em última análise, não é apenas o crescimento de uma indústria, mas o despertar de um gigante adormecido sob o Cerrado.
Não estamos diante de uma simples exploração de recursos, mas de uma renascença mineral que coloca o Tocantins como o guardião da segurança alimentar e o motor da transição tecnológica global. O brilho que emana deste solo é a luz de um futuro que já começou.
JÚLIO EDSTRON SECUNDINO SANTOS
É advogado, graduado em Direito pela Universidade Presidente Antônio Carlos (2008), Mestre em Direito pela Universidade Católica de Brasília (2014). Doutor em Direito pelo UniCEUB. Professor da Fbr e Professor Convidado do Programa de Mestrado em Desenvolvimento Regional da UFT. Ex-Diretor Presidente da Mineratins. Ex – Secretário Estadual da Fazenda Estadual do Tocantins. Ex-assessor especial da Presidência do TCE do Tocantins. Ex-assessor especial da Procurador Geral de Contas do TCE do Tocantins. Ex-membro da comissão de ensino jurídico da OAB/MG. Pesquisador do Centro Universitário de Brasília. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Público e Direito da Mineração, atuando principalmente nos seguintes temas: Terceiro Setor, Direito da Mineração; Direito Tributário. direitos fundamentais, educação em direitos humanos, cidadania e direito e Seguridade Social. Membro dos grupos de pesquisa Núcleo de Estudos e Pesquisas Avançadas do Terceiro Setor (NEPATS) da UCB/DF, Políticas Públicas e Juspositivismo, Jusmoralismo e Justiça Política do UNICEUB. Editor Executivo da REPATS.
















