A minha casa antiga do interior, onde nasci e passei a primeira parte da vida, continua viva e na teimosia de resistir ao tempo em minha memória. Hoje guardada em meu coração parece até menor do que eu lembrava, talvez porque a gente cresce, mas a memória insiste em manter tudo grande, largo e iluminado como na infância e adolescência.
O telhado escurecido ainda range quando o vento passa, como se fosse a própria casa espreguiçando os tempos. A porta da frente guarda o mesmo ruído grave que anunciava cada chegada, um chiado que eu jurava ser uma saudação. Os passos firmes e inconfundíveis do meu pai no grande corredor de entrada, ecoam em minha memória. E, por mais que tentem consertá-la, ela sempre volta a cantar daquele jeito, como se quisesse lembrar quem realmente manda ali: a história.
O quintal, antes imenso, hoje cabe inteiro num olhar. Mas bastava um passo naquela terra vermelha para que tudo voltasse: o cheiro de terra molhada e engravidada pelas primeiras chuvas; as grandes mangueiras de doces frutos, em especial a manga rosa, que servia de torre de vigia e espiã dos quintais vizinhos nas brincadeiras; o galinheiro onde eu jurava haver tesouros escondidos em cada ninho, antecipando a degustação de uma deliciosa gemada; a cisterna oferecendo água para irrigar plantas e flores, em especial lindos cachos de colar de rainha e a videira com seus pequenos e azedos frutos… Ali, entre poeira, risadas e pequenos arranhões, ficavam guardadas as primeiras aventuras que o mundo me permitiu viver.
Por dentro, a casa que vive em mim continua fresca, mesmo nos dias de calor. As paredes seguram lembranças como quem segura água entre as mãos. A mesa da copa-cozinha sempre posta, sempre viva, ainda parece esperar que as conversas estalem no ar junto com o cheiro de café. E o relógio antigo na parede da sala marcando o tempo do seu próprio jeito: às vezes atrasado, às vezes precisando de corda, mas honesto e certeiro.
No quarto onde eu dormia, a luz entra pela mesma fresta da janela e do telhado desenhando no chão aquele retângulo dourado que era o sinal de que o dia começava. Às vezes sinto que, se eu me sentasse ali no mesmo canto, conseguiria ouvir o barulho distante das vozes chamando para o almoço, ou o radinho antigo na grande sala trazendo músicas nas manhãs e a noite trazendo notícias de bem longe.
O tempo mexeu na casa, como mexe em tudo. Mas há lugares que não envelhecem: apenas mudam de função. A casa antiga não é mais o cenário da minha vida, é o cofre indevassável dela. Cada tijolo, cada cantinho, cada cômodo parece saber mais de mim do que eu mesmo. E sempre que volto por lá, mesmo substituída por uma construção moderna, sinto que ela respira, reconhece e abre espaço para que eu me reencontre.
Algumas casas não são apenas construções. São testemunhas. São raízes. São o ponto exato onde a memória decide morar para sempre. Tornou-se um lugar sagrado. Assim é a casa que ainda vive em mim e eu nela e dá abrigo à minha memória e minhas recordações.
Quem tem ouvidos que ouça, quem tem olhos que veja!
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
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