Há uma imagem que merece ser guardada.
Uma empresa fundada quando o Brasil ainda era governado por um imperador apresenta-se ao mundo como startup. A frase parece contraditória, mas talvez seja uma das definições mais lúcidas do verdadeiro sentido da inovação.
Há empresas que envelhecem antes mesmo de completar uma década.
Tornam-se prisioneiras do próprio sucesso, repetem fórmulas antigas e passam a acreditar que o passado é garantia do futuro. E há outras que desafiam a lógica do tempo.
Fundada em 1834, ainda sob o Império, uma empresa brasileira decidiu olhar para o futuro como quem acaba de nascer. Reduziu jornadas, reorganizou escalas, incorporou inteligência artificial, conectou suas minas por redes digitais, automatizou operações e descobriu que a tecnologia não serve apenas para produzir mais, mas também para proteger vidas, reduzir o desgaste humano e tornar o trabalho mais inteligente.
Em algumas operações, a companhia já adota a escala 4×2, modelo que busca equilibrar produtividade, descanso e bem-estar dos trabalhadores. Seu dirigente resumiu essa filosofia numa frase que merece ser lembrada: “Somos uma startup de 192 anos.”
A afirmação é mais do que estratégia de marketing. É declaração de princípios. A verdadeira juventude não pertence à idade, mas à capacidade de mudar.Essa experiência torna-se ainda mais relevante justamente agora, quando o Brasil debate novos modelos de jornada de trabalho. Empresários e políticos, cada um à sua maneira, ocupam o centro do debate. Setores empresariais argumentam que reduzir dias trabalhados ou alterar escalas tradicionais elevaria custos, diminuiria a competitividade e comprometeria empregos. Políticos, por sua vez, dividem-se entre o apelo popular por mais tempo de vida fora do trabalho e o receio de desagravar bases econômicas que financiam campanhas e sustentam o discurso de crescimento.
Contudo, a experiência demonstra que inovar nem sempre significa fazer as pessoas trabalharem mais; muitas vezes significa fazê-las trabalhar melhor.
Quando tecnologia, gestão eficiente e valorização das pessoas caminham juntas, produtividade e qualidade de vida deixam de ser objetivos incompatíveis e passam a reforçar-se mutuamente.
Nesse debate, há também quem critique a escala 5×2 por entender que ela concentra demais a rotina em cinco dias consecutivos e oferece pouco espaço para recuperação física e mental. Muitos empresários opõem-se a mudanças; muitos políticos hesitam, temendo o custo eleitoral de reformas impopulares e o risco de perder o apoio de setores que veem em qualquer alteração da jornada um sinal de insegurança jurídica. Para esses críticos, modelos mais flexíveis, como o 4×2, podem representar uma resposta mais moderna às exigências do trabalho contemporâneo, especialmente em atividades que dependem de alta concentração, de operação contínua e do cuidado com a saúde do trabalhador.
Vivemos num mundo em que muitos confundem tradição com imobilismo. Esquecem que a tradição só permanece viva quando dialoga com o futuro. O rio conserva seu nome, embora suas águas nunca sejam as mesmas.
Assim acontece com as instituições que desejam atravessar os séculos: preservam a identidade, mas renovam continuamente os métodos.
Essa lição ultrapassa os muros das empresas. Vale para governos, universidades, famílias e para cada um de nós. A experiência é um patrimônio precioso, mas só produz riqueza quando se transforma em aprendizado. Caso contrário, converte-se em nostalgia.
O tempo não recompensa quem simplesmente resiste.
Recompensa quem evolui. Talvez esse seja o maior paradoxo da longevidade: permanecer jovem não significa ter poucos anos de existência; significa conservar a coragem de abandonar velhas certezas para construir novos caminhos.
O calendário registra a idade.
É a disposição para inovar que revela a verdadeira juventude.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.
















