Imaginemos André Ventura eleito Presidente da República — não como líder partidário em campanha permanente, mas investido do poder simbólico, institucional e internacional do cargo. O resultado provável não seria uma ruptura imediata da ordem democrática, mas algo mais lento e insidioso: um desgaste progressivo da democracia portuguesa, sobretudo nos planos social, cultural e externo.
1- Imigração: da política ao estigma
Ventura construiu grande parte do seu capital político associando imigração a criminalidade, abuso do Estado social e desordem. Como Presidente, não poderia legislar, mas disporia de instrumentos relevantes: o veto político, a pressão sobre o governo e, sobretudo, a capacidade de moldar o debate público. O efeito mais profundo não estaria nas leis, mas na linguagem. A suspeita tornar-se-ia norma.
O imigrante deixaria de ser visto como trabalhador, contribuinte ou cidadão em construção, para passar a ser encarado como problema estrutural e permanente.
A comunidade lusófona em risco.
2- O choque com a lusofonia seria inevitável.
Portugal construiu parte da sua relevância diplomática na CPLP e numa relação histórica — imperfeita, conflituosa, mas real — com África e o Brasil. Um Presidente hostil à imigração africana e brasileira corroeria essas pontes.
O discurso identitário de Ventura é incompatível com uma lusofonia plural, mestiça e global.
O custo seria político, económico e simbólico.
Não é irrelevante que, no espaço público, Ventura já tenha prometido “mandar prender” o Presidente Lula, como se dispusesse de tal poder, ou apontado o dedo à corrupção em Angola como se em Portugal ela não existisse — esquecendo, convenientemente, que muitos corruptos angolanos sempre circularam de mãos dadas com corruptos lusos.
Esse moralismo seletivo fragiliza Portugal no exterior e expõe o país ao ridículo diplomático.
3- Portugueses não brancos e a exclusão legitimada
O problema central não seria jurídico, mas cultural. A retórica do “português de bem” cria categorias implícitas de pertença e exclusão.
Mesmo sem leis abertamente discriminatórias, o efeito seria a legitimação social da exclusão. Quando o chefe de Estado fala, autoriza comportamentos.
O silêncio institucional protege; a palavra presidencial legitima.
No caso da comunidade cigana, o impacto seria ainda mais direto.
Ventura construiu notoriedade política apontando os ciganos como corpo estranho à nação. Como Presidente, transformaria preconceito em discurso de Estado.
Mesmo sem poder executivo, as consequências seriam reais: mais estigmatização, menos mediação, mais conflito social.
Instituições sob tensão permanente
O Presidente não governa, mas influencia — e Ventura seria um foco constante de tensão institucional.
Confronto permanente com o governo, pressão sobre tribunais, vetos com finalidade populista e discursos orientados para a mobilização emocional. O resultado seria o desvio da atenção pública: em vez de consensos mínimos sobre saúde, educação, habitação ou transição energética, o país ficaria entretido em guerras culturais intermináveis, sempre à procura de novos bodes expiatórios.
4- O “Trump português”
A comparação faz sentido no estilo, não na escala. Ventura seria uma versão periférica do trumpismo: mais barulho do que poder real. Portugal não é uma superpotência; depende da União Europeia, do turismo, da estabilidade externa e da previsibilidade institucional. Um Presidente beligerante teria pouco músculo e muito ruído — o suficiente para desgastar, mas insuficiente para transformar.
Ventura é uma espécie de versão “tupiniquim” de Trump, figura que já conhecemos bem por estas bandas tropicais. Mas, no caso, trata-se de um exemplar genuinamente ibérico — moldado por ressentimentos locais, nostalgias imperiais mal digeridas e uma retórica identitária adaptada à periferia europeia. É o “trumpismo sem império”: barulhento na forma, acanhado no alcance e profundamente dependente do medo como seu combustível político.
5- Corrupção, moralismo e o “roubo de malas”
Há ainda uma ironia difícil de ignorar. Ventura apresenta-se como cruzado anticorrupção, mas o seu próprio partido já foi cercado por casos de compadrio, contradições e escândalos. Um deles roça o grotesco: um eleito do Chega envolvido em acusações de furto de malas em aeroportos — símbolo perfeito de uma degradação ética que não é monopólio dos “outros”.
Fala em moralizar o país enquanto, à sua volta, se acumulam episódios que desmentem o pedestal moral em que tenta subir. Quem quer um Presidente que combate a corrupção no microfone, mas convive politicamente com a mesma corrupção que denuncia? Há, claramente, corruptos de estimação.
6- O campeão das fake news
Estudos recentes sobre desinformação eleitoral em Portugal apontam o partido de Ventura como um dos principais difusores de notícias falsas e conteúdos manipulados. Em linguagem simples: o Chega destaca-se como campeão das fake news no campo partidário.
Que ideia de Presidência é esta, construída sobre distorção sistemática dos factos, fabricação de medos e produção de inimigos? Que confiança democrática pode inspirar um Presidente que ascende politicamente à boleia da mentira?
7- O mito colonial e o apelo ao ressentimento
No fundo, Ventura não propõe um futuro, mas um passado mal resolvido. Ao evocar as infraestruturas deixadas pelos portugueses nas ex-colónias como se fossem um património perdido ou uma dívida histórica por cobrar, alimenta um imaginário colonial que serve sobretudo para mobilizar ressentimentos — dos saudosistas do império e de sectores dos chamados “retornados”. A história transforma-se, assim, em arma política.
Esse discurso ignora que tais infraestruturas serviam essencialmente a lógica colonial e não o desenvolvimento dos povos colonizados.
Mais grave ainda: projeta uma política externa fantasiosa, como se Portugal pudesse rever, reclamar ou moralizar um passado que o direito internacional e a própria história encerraram. Num Presidente da República, esta retórica seria particularmente nociva, porque substitui cooperação por nostalgia ressentida e respeito mútuo por fantasia imperial.
8- Pseudo protetor dos imigrantes
Ventura gosta de se apresentar como “protetor dos imigrantes” — sobretudo daqueles que, segundo ele, seriam explorados por redes ilegais ou por patrões sem escrúpulos. Mas essa suposta proteção é seletiva e instrumental. Serve menos aos imigrantes e mais à sua própria estratégia política. Não é por acaso que, na diáspora portuguesa, o Chega obteve votações expressivas.
O discurso de Ventura ressoa junto de comunidades emigradas que vivem tensões identitárias, insegurança social e medo de perda de estatuto. Ao falar em nome de uma ordem ameaçada, ele oferece reconhecimento simbólico e converte ansiedade em capital eleitoral. Não se trata de defesa dos imigrantes, mas de exploração política do ressentimento — uma retórica que protege votos, não pessoas. Pura demagogia!
8- O resultado provável
Não haveria colapso imediato, mas um empobrecimento político e moral: menos diálogo, mais medo, mais identitarismo e um país menor no mundo. Para um Estado periférico, isso não é sinal de força, mas de vulnerabilidade.
Ventura como Presidente não resolveria nada de estrutural. Seria, antes, o sintoma agravado de um país entretido em discutir inimigos imaginários enquanto adia os seus problemas reais.
Em suma: não seria apenas uma mudança desastrosa, mas sobretudo um grande retrocesso para Democracia portuguesa.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.
NOTA DA REDAÇÃO: António José Seguro, candidato da esquerda e quadro histórico do Partido Socialista, venceu de lavada as eleições desse domingo, 8, e será o próximo presidente de Portugal. Com 98,6% das urnas apuradas, o político tinha cerca 66,6% dos votos válidos, superando com facilidade André Ventura, do partido ultradireitista Chega — foram mais de 30 pontos percentuais de vantagem, com Ventura marcando 33,4%.
















