Desde o ponto de vista teológico clássico, recorrer a Deus para “encobrir práticas criminosas, reduzir povos à servidão, torturar ou matar” é blasfêmia direta contra o segundo mandamento, como lembra o próprio Catecismo da Igreja Católica.
Historicamente, porém, essa blasfêmia é recorrente: cruzadas, guerras coloniais, limpeza étnica, todas embaladas em linguagem sacralizada para que a violência pareça inevitável e santa.
O que se vê hoje é uma atualização disso: comandantes e autoridades descrevendo guerras no Irã e em outras regiões como parte de um “plano divino”, chegando a afirmar que presidentes foram “ungidos por Jesus” para acender o fogo de Armagedom.
Esse tipo de discurso não é fé; é manipulação psicológica e política, porque transforma a objeção moral em “falta de fé” e torna a própria paz suspeita de ir contra Deus.
Sua exclamação — “Deus! Deus! Quantos crimes se cometem em teu nome?” — ecoa o protesto de tantos crentes que recusam ser cúmplices dessa teologia bélica e preferem ver em Deus um limite à violência, não o seu álibi.
Se quiser, posso ajudar a transformar essa indignação em uma breve crônica ou comentário para rádio e redes, articulando o caso atual com essa crítica histórico-teológica ao uso do nome de Deus para matar.
Quando um secretário da Defesa ergue o dedo e invoca um “propósito divino” para legitimar a capacidade de lançar “morte e destruição do alto” sobre um povo inteiro, não estamos diante de fé, mas da mais grave instrumentalização do nome de Deus.
Do ponto de vista teológico clássico, o segundo mandamento manda honrar o nome do Senhor e proíbe todo uso impróprio, especialmente quando o nome divino é convertido em selo sagrado para projetos humanos de violência.
O próprio desenvolvimento da doutrina da “guerra justa”, de Agostinho a Tomás de Aquino e ao Catecismo contemporâneo, estabelece critérios estritos: causa verdadeiramente justa, último recurso, proporcionalidade, defesa de inocentes e proibição de males maiores que o mal combatido.
Quando uma potência militar, já sabidamente capaz de “overwhelming force”, apresenta sua ofensiva como missão providencial contra inimigos “apocalípticos”, transforma esses critérios em mera retórica e volta a velha tentação de confundir o Reino de Deus com a geopolítica de um império.
Nessa lógica, o desacordo jurídico ou ético passa a ser rotulado como falta de fé, e a objeção de consciência de crentes e não crentes é silenciada sob a acusação de blasfêmia, quando a verdadeira blasfêmia é usar o nome de Deus para abençoar o bombardeio de civis.
Em contraste, a tradição cristã que se leva a sério reconhece que, se há algum “propósito divino” no conflito humano, ele é o de limitar a violência, proteger os vulneráveis e abrir caminhos de justiça e paz — nunca o de conceder imunidade moral a quem tem mais poder de matar.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.
















