Já não é novidade que a forma como as pessoas consomem notícias mudou. Isso não é mais tendência, é realidade. O celular virou a principal porta de entrada da informação, e as redes sociais passaram a disputar o espaço que antes era ocupado quase exclusivamente por jornais, rádios e televisões.
Em artigos que já publiquei anteriormente, discuti como essa transformação não representa necessariamente um conflito entre o jornalismo tradicional e as novas mídias digitais, mas sim uma transição inevitável. Também analisei o crescimento acelerado de sites de notícias no Tocantins e os riscos que esse fenômeno traz quando não é acompanhado de responsabilidade editorial.
Hoje, o que se percebe é que essa discussão deixou de ser teórica. Ela já está acontecendo na prática e com impactos reais sobre o futuro da informação no estado.
Nos últimos anos, cidades como Palmas passaram a conviver com uma explosão de páginas e portais que se apresentam como veículos de comunicação. Muitos surgem com aparência de jornalismo, mas sem estrutura mínima de redação, sem jornalista responsável e sem compromisso com a apuração. A lógica não é informar: é alcançar.Essa dinâmica cria uma espécie de distorção silenciosa. Enquanto o público acredita estar consumindo notícia, na verdade está consumindo fragmentos de informação, muitas vezes incompletos, descontextualizados ou simplesmente reproduzidos sem verificação. O resultado é uma sensação constante de atualização, mas não necessariamente de compreensão. Ex.: “Carro é encontrado abandonado em área de mata em Palmas. Sem mais informações!”
O problema se aprofunda quando esse modelo passa a disputar espaço com o jornalismo profissional. Em Palmas e em outras cidades do Tocantins, estudantes se formam em cursos de jornalismo acreditando que encontrarão um mercado onde poderão exercer a profissão com autonomia. No entanto, ao tentar empreender, descobrem um cenário já ocupado por estruturas informais que operam sem os mesmos custos, sem as mesmas responsabilidades e, muitas vezes, sem os mesmos limites éticos.
Não se trata de romantizar a profissão. O jornalismo sempre enfrentou desafios econômicos. A diferença é que hoje a concorrência deixou de ser apenas editorial e passou a ser estrutural. Quando a informação vira apenas um produto de audiência, quem investe em apuração passa a competir em desvantagem.
Essa realidade ganha ainda mais relevância em períodos eleitorais. O Tocantins, como qualquer outro estado, vive ciclos políticos intensos. Em um ambiente onde a velocidade da publicação é valorizada acima da verificação, o risco de desinformação aumenta significativamente. Páginas com grande alcance podem influenciar percepções, formar narrativas e impactar decisões coletivas sem necessariamente assumir a responsabilidade por isso.
Enquanto isso, veículos que mantêm uma rotina de checagem, contextualização e compromisso público tendem a crescer de forma mais lenta. Não porque sejam menos relevantes, mas porque operam dentro de um modelo que prioriza a confiança, e confiança leva tempo para ser construída.
O debate que se impõe não é sobre quem deve informar. A democratização da comunicação é um avanço. O ponto central é como garantir que a expansão das plataformas digitais não resulte na precarização do direito à informação de qualidade.
O futuro do jornalismo no Tocantins não depende apenas da adaptação tecnológica dos veículos. Depende também de uma compreensão coletiva sobre o valor do trabalho jornalístico. Informar não é apenas publicar. É investigar, explicar, corrigir quando necessário e, acima de tudo, respeitar quem está do outro lado da tela.
No fim, a diferença entre a aparência de informação e o jornalismo de verdade pode não estar na velocidade, nem no número de seguidores. Está na responsabilidade assumida com cada conteúdo divulgado. E essa responsabilidade continua sendo o que define a relevância de um veículo ontem, hoje e nos próximos anos.
RAMON FLAUBERT MACEDO
É jornalista, professor e fundador do Jornal Sou de Palmas.
















