Aos 94 anos, Fernando Henrique Cardoso acaba de ser interditado pelos filhos, por decisão da Justiça de São Paulo, em razão de um quadro avançado de Alzheimer que já não lhe permite praticar sozinho os atos jurídicos da vida civil.
O juiz nomeia Paulo Henrique, o primogênito, como curador provisório, e essa palavra — curador — parece ironicamente deslocada diante de um homem que, durante décadas, “curou” a inflação, equilibrou contas, assinou tratados, orientou destinos de uma nação. Agora, é o filho quem o conduz pelos labirintos da burocracia, como se o sociólogo, acostumado a interpretar estruturas invisíveis, se visse enredado na mais íntima de todas as estruturas: a da própria mente em colapso.
O Alzheimer, dizem os médicos e os manuais, chega aos poucos, apagando datas, embaralhando rostos, confundindo portas e caminhos; mas, no caso de um ex-presidente, a doença ganha outra dimensão, porque não é apenas a memória de um homem que falha, é a memória de um tempo que se dobra sobre si mesmo.
O professor que explicava a modernização do Brasil já não reconhece, talvez, a rua em que morou; o escritor que anotava ideias em guardanapos pode não encontrar mais a palavra certa para pedir um copo d’água.
O autor de livros e artigos, citado em teses e discursos, assiste — se é que ainda assiste — à lenta demolição de sua própria biblioteca interior, estante por estante, título por título, até restar apenas um silêncio que ninguém, nem os filhos, consegue traduzir.
No papel, a interdição é um ato técnico: petição dos filhos, laudos médicos, parecer do Ministério Público, deferimento do juiz, publicação da decisão.
O processo lista sintomas, limita poderes, estabelece o raio de ação do curador; suspende a mão do interditado diante de contratos, cheques, escrituras, como se dissesse: “daqui em diante, alguém assina por você”.
Não é, juridicamente, uma morte civil — a reforma do Código Civil e o Estatuto da Pessoa com Deficiência insistem em lembrar que a curatela deve ser medida excepcional, restrita ao patrimônio, preservando ao máximo a dignidade, os afetos, o nome, a história.
Mas, para quem vê de fora, há sempre um quê de rito fúnebre nesse gesto: o velho estadista é retirado, aos poucos, da cena jurídica, como antes foi retirado, em silêncio, da cena intelectual que o consagrou.
É um país inteiro que se reconhece nesse corpo cansado, nesse olhar possivelmente perdido, nessa assinatura que já não firma a própria vontade.
Aquele que um dia foi sinônimo de estabilidade econômica transforma-se em símbolo da instabilidade mais íntima, aquela que nenhum plano, nenhuma emenda constitucional, nenhuma coalizão parlamentar consegue deter.
A democracia que ele ajudou a consolidar segue em marcha, com outros embates, outros discursos, outros candidatos, enquanto o seu universo pessoal se contrai ao perímetro de um quarto, de uma poltrona, de uma rotina de remédios e cuidados.
A biografia, no entanto, permanece intacta nos livros, nas bibliotecas, nas decisões de governo, nos documentários, nas críticas e elogios que preenchem as páginas da história recente.
É como se houvesse dois FHC: o de carne e esquecimento, que a família protege com a interdição, e o de papel e memória coletiva, que nenhuma sentença judicial consegue limitar.
No lar, os filhos assinam, respondem, representam; no imaginário do país, o ex-presidente ainda discursa, escreve, debate, concorda e diverge, como se continuasse sentado à mesa das grandes decisões. A figura do curador, nesse contexto, é quase uma metáfora: Paulo Henrique não apenas administra bens, mas guarda, sem que o código diga, o acervo afetivo de um pai que, aos poucos, se despede do próprio passado.
A interdição, vista assim, não é o fechamento de uma porta, mas a tentativa de mantê-la entreaberta, protegendo do vento forte do mundo alguém que já não consegue trancar sozinho os seus umbrais.
O direito, que sempre chega com sua linguagem seca, aqui se curva diante da medicina e da velhice, aprendendo a falar com mais cuidado de um homem cujo maior legado foi justamente acreditar que a razão ainda podia organizar o caos brasileiro.
Talvez seja esse o paradoxo final: o intelectual que estudou a sociedade, o político que redesenhou a economia, o professor que tanto falou em modernidade e transição, agora vive a mais radical das transições — do domínio da própria consciência à dependência de outrem para assinar o próprio nome.
A interdição é a certidão jurídica desse deslocamento: atesta que o sujeito que um dia decidiu o destino de milhões já não pode decidir, sozinho, nem o destino de seus bens. Mas não há decreto que interdite o que ele representa para a memória nacional: essa continuará em circulação, citada em aulas, disputada em análises, reavaliada pelo tempo, como acontece com todos aqueles que, de algum modo, se confundiram com a história do país.
E, enquanto isso, na intimidade que nenhum noticiário alcança, um filho segura o braço do pai para ajudá-lo a levantar-se da cadeira — e nesse gesto simples se revela a mais alta política do cuidado: a que não precisa de votos, mas de presença.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.















