Um jurista evangélico é rejeitado por senadores que se proclamam guardiões da fé, mas a recusa não nasce do Evangelho — germina nos corredores sinuosos do poder.
A mesma mão que ergue a Bíblia no plenário é a que fecha a porta ao irmão de crença quando ele não se dobra ao projeto político da ocasião.
As lideranças evangélicas assistem em silêncio, como se nada lhes dissesse respeito, enquanto o “irmão” é descartado em nome de alianças, conchavos e cálculos eleitorais. O silêncio, nesse caso, fala mais que muitos sermões: revela conveniência onde deveria haver coragem.
O púlpito que denuncia o relativismo moral relativiza, ele próprio, a solidariedade mais elementar: reconhecer no outro alguém que compartilha fé, história e esperança.
Quando a conveniência entra pela porta, a fraternidade sai pelos fundos.
Nessa cena, a religião converte-se em biombo, não em horizonte; serve para legitimar, não para iluminar.
Os discursos inflamados sobre valores cristãos perdem substância quando o critério deixa de ser a coerência ética e passa a ser apenas a utilidade política.
O irmão de fé é celebrado enquanto reforça o coro; quando ousa pensar diferente, transforma-se em obstáculo. Sua independência incomoda mais do que qualquer divergência doutrinária.
Por isso, a rejeição desse jurista não soa como simples divergência democrática, mas como recado severo: aqui, a fé tornou-se moeda de troca, não compromisso de consciência.
A verdadeira heresia, nesse templo de interesses, não é negar um dogma — é recusar-se a ajoelhar diante do poder. E o silêncio das lideranças, cúmplice e acomodado, ecoa mais alto que qualquer pregação de domingo.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.















