Há documentários que informam. Outros emocionam. E há aqueles, mais raros, que conseguem realizar algo maior: devolver a uma sociedade a memória de sua própria coragem. Foi essa a sensação que tive ao assistir ontem ao documentário SOS UNITINS, exibido em Palmas como parte do esforço de recuperação histórica de um dos movimentos estudantis mais marcantes do Tocantins contemporâneo.
O documentário revisita os 27 dias de mobilização que, no início dos anos 2000, levaram estudantes às ruas, à organização de atos públicos e à ocupação de espaços, transformando a defesa da universidade pública em uma causa coletiva.
Mais do que um protesto estudantil, o movimento SOS UNITINS consolidou-se como símbolo de resistência política e afirmação do direito à educação superior pública no Estado.
Assistir ao documentário ontem percebi que o tempo transforma quase tudo — exceto a força de certas causas. As imagens, os relatos e os testemunhos não revelam apenas jovens reagindo a uma crise institucional; expõem uma geração que compreendeu, com clareza, que a perda da universidade significaria comprometer o futuro de milhares de tocantinenses.
Um dos grandes méritos da obra está em evitar uma narrativa fria ou meramente cronológica. O filme não se limita a organizar datas e depoimentos: ele reconstrói a atmosfera emocional daquele período — a tensão das assembleias, o desgaste dos atos contínuos, a esperança compartilhada, o sentimento de enfrentamento permanente e, sobretudo, a convicção inabalável de que a universidade pública precisava resistir.
Há também um forte simbolismo em revisitar esse episódio num tempo marcado pelo individualismo e pela dispersão digital. O SOS UNITINS nos remete a uma época em que estudantes abdicavam da neutralidade confortável para assumir posições públicas diante da história. A militância estudantil, naquele contexto, não era performática; era ação concreta na construção institucional do Tocantins.
O documentário assume, ainda, uma relevante função pedagógica. Muitos estudantes que hoje percorrem os corredores da Universidade Federal do Tocantins desconhecem as circunstâncias que antecederam sua criação.
A universidade, para as novas gerações, surge como algo dado, quase natural. O filme desmonta essa percepção ao evidenciar que instituições públicas são fruto de disputas políticas, mobilizações sociais e persistência coletiva.
Nesse sentido, SOS UNITINS ultrapassa o campo do cinema: torna-se documento histórico, arquivo social e instrumento de formação cidadã. Ao recuperar vozes, rostos e experiências frequentemente apagados pela memória oficial, impede que a luta estudantil seja dissolvida pelo silêncio do tempo.
Talvez o aspecto mais poderoso do documentário resida em seu caráter profundamente humano.
Para aqueles que viveram os acontecimentos, como eu, assisti-lo é reencontrar não apenas pessoas, nas versões mais jovens de si mesmos.
Há, na tela, um verdadeiro espelho temporal: revivem-se a coragem, os medos, as utopias e até as ingenuidades que impulsionaram o movimento.
Percebe-se, então, que não se tratava apenas de defender uma instituição, mas de sustentar uma ideia de futuro.
O cinema, nesse contexto, transforma-se em espaço de reencontro entre passado e presente. A sala escura deixa de ser apenas local de exibição para se converter em uma assembleia silenciosa da memória coletiva tocantinense.
Em tempos de amnésia social acelerada, iniciativas como essa tornam-se indispensáveis. Povos que esquecem suas lutas perdem também a capacidade de compreender o valor de suas conquistas. A universidade pública, gratuita e socialmente comprometida não surgiu por acaso: foi construída por pressões políticas, debates intensos e pela recusa de muitos jovens em aceitar passivamente o enfraquecimento do ensino superior no Estado.
Ao final da sessão, torna-se evidente que o documentário não fala apenas do passado — ele interpela o presente. Ainda somos capazes de mobilização coletiva? Ainda reconhecemos a educação pública como patrimônio social? Ainda há espaço para o espírito de solidariedade política que marcou aquela geração?
Talvez o maior mérito de SOS UNITINS seja justamente este: lembrar que universidades não nascem apenas de decretos administrativos. Elas também nascem da insistência coletiva, da resistência democrática e da coragem de estudantes que decidiram ocupar a história antes que a história os esquecesse.
Registro, por fim, meus cumprimentos ao Edson Cabral Oliveira , Osmar Casagrande e a todos os envolvidos na realização do documentário — uma obra necessária, sensível e historicamente valiosa.
Mais do que recuperar imagens e acontecimentos, o filme devolve voz a uma geração que compreendeu que defender a universidade pública era, em última instância, defender o futuro do próprio Estado.
Mais que um registro audiovisual, trata-se de uma transformação da memória em patrimônio coletivo. O documentário reabre arquivos afetivos, reconstrói a atmosfera das mobilizações e lembra às novas gerações que a história da Universidade Federal do Tocantins também foi escrita nas ruas, nos atos públicos e na coragem de estudantes que se recusaram a desistir.
Em um tempo de memórias fugazes e esquecimentos velozes, obras assim cumprem uma função essencialmente cívica: preservar a consciência histórica de um povo.
Como tenho afirmado, depois da criação do nosso estado, a maior obra dos tocantinenses foi a construção da UFT. Sinto-me honrado em ter sido um dos protagonistas .
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.















