As palavras são, talvez, a invenção mais perigosa e sublime da humanidade. De fato, carregamos no nosso vocabulário um arsenal invisível: palavras disparadas não admitem recall.
Elas, as palavras, são a prova máxima de que nós adoramos brincar com fogo sem termos um extintor por perto. Falar, na verdade, deve ser um ato de responsabilidade, porque o corpo se cura de um arranhão em dias, mas a alma costuma carregar a cicatriz de uma palavra dita impensadamente por décadas. É um projétil de ponta oca; entra silenciosa e estilhaça certezas e incertezas por dentro.
Para ilustrar a dupla personalidade das palavras, nada melhor do que o laboratório do dia a dia, fazendo uso da nossa amada Língua Portuguesa.
Quando dizemos “interessante”, como reação sincera a uma ideia nova, isso valida e impulsiona a criatividade da outra pessoa. Mas quando o “interessante” é pronunciado pausadamente por um pseudointelectual, acompanhado de um ar circunspecto e com a sobrancelha levemente erguida, saibam que o sentido da palavra é “isso é uma porcaria! ”
E o “esquece”? Dito quando alguém comete um erro bobo, funciona como uma borracha mágica que apaga toda culpa alheia. Mas quando o mesmo “esquece” é dito no meio de uma DR, é a desistência clássica de ser entendido, elevada à máxima potência!
Mas se as palavras isoladamente podem ser armas, imaginem quando elas se juntam! São combinações que operam milagres ou se tornam o combustível para alguém desistir de imediato daquilo que tinha absoluta certeza minutos antes.
O ”estou aqui” funciona como um abraço sólido, demonstrando aquele afeto grandioso, que parece um abrigo antiaéreo a nos proteger das intempéries do mundo. Já o mesmo “estou aqui” dito em resposta a quem nos procura, é revestido de sarcasmo destilado e impaciente, tipo “você sabe que estou aqui! ”.
Exemplos não faltam. Existe um certo cinismo embutido quando dizemos “com todo o respeito”. Essa expressão provavelmente será a maior falta de respeito a ser ouvida. Funciona assim: quem fala acredita que ao pronunciar esse mantra, ganha imunidade diplomática para destruir sua ideia ou seu conhecimento sobre determinado fato e – pasmem – retira até a possibilidade de o ouvinte ficar chateado!
Palavras ditas nas despedidas são o grande ápice da nossa dissimulação social. A dualidade atinge níveis de mestre quando dizemos “vamos marcar! ”. É o atestado de óbito de qualquer encontro futuro. Mais grave é a variação da expressão anterior. O fatídico “a gente vai se falando”. É a despedida perfeita para a era do WhatsApp! Evita a definitividade de um “adeus”, a precariedade de um “até breve”, mas significa que o canal está aberto e que outro encontro só será possível por obra do acaso. Quanto ao infalível “vê se aparece”, nunca deve ser levado a sério! A pessoa não quer que a outra apareça, e se ela for confiar na literalidade da expressão, corre o risco de não ser recebida.
Nesse ranque, não pode ser esquecido o “não é por nada não…”. Creiam, é por tudo, sim! Esta expressão é o prefácio da fofoca destrutiva ou da crítica improdutiva. Passa até a ideia de que é um comentário desinteressado, mas na verdade é um dardo tranquilizante, lançado antes de a pessoa empurrar a outra no abismo.
Porém, a sentença de morte para qualquer relacionamento é o “você quem sabe”! Parece o oferecimento de liberdade e autonomia, mas é uma armadilha infalível. Sua tradução é longa: “escolha o que eu quero ou arque com as consequências que virão”. É uma independência sob vigilância, quase uma tornozeleira eletrônica psicológica.
Dito isso, talvez a grande piada da Língua Portuguesa seja esta: mesmo sabendo que as palavras mentem, dissimulam, cortam e nos fazem sangrar, continuamos falando irresponsavelmente, esperando que, por algum erro estatístico, a próxima palavra traga um acolhimento verdadeiro.
ROSANNA MEDEIROS FERREIRA ALBUQUERQUE
É procuradora do Estado aposentada.















