Passei vários dias irritado e recluso. Não conseguia comer, ler ou escrever. Estou, novamente, em tratamento antidepressivo. O médico me concedeu alguns dias de atestado. Então, fico em casa, sozinho, o dia inteiro. Ligo e desligo a TV. Olho o celular, nenhuma nova mensagem…
Por vezes, acho que estava melhor antes desse maldito tratamento. Afinal, não há problema em ser infeliz, penso. O psicólogo espanhol David Salinas publicou um livro interessante sobre esse tema: La dictadura de la felicidad — A ditadura da felicidade.
Ele não defende a infelicidade; na realidade, critica a chamada “indústria da felicidade”. Segundo o autor, o resultado dessa indústria é a explosão de vendas de livros de autoajuda e ingressos para palestras de coaching, ambos repletos de frases motivacionais e receitas prontas para a felicidade e o sucesso. Autoajuda me deprime.
Enquanto reflito sobre essas questões, deitado no chão da sala, observo minha estante de livros. Após algum tempo, planejo mentalmente meus movimentos, levanto-me e pego um: Tempos ásperos, do peruano Mario Vargas Llosa, Nobel de Literatura. Parece interessante. Mas o autor, com sua escrita impecável, é um intelectual conservador, que acredita em meritocracia… Devolvo a obra ao seu lugar na estante.
Retiro outro: O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez, também latino-americano e Nobel de Literatura. Quando será que um autor brasileiro será laureado com um Nobel?
Uma obra maravilhosa! Já li, reli e assisti ao filme, dirigido por Mike Newell, com trilha sonora de Shakira e estrelado por Javier Bardem e Fernanda Montenegro.
Conta a história de amor de Florentino Ariza e Fermina. Um amor que sobrevive ao tempo. Quando ela fica viúva, após cinquenta e um anos, ele percebe a chance de reconquistá-la. Que história!
Em seu livro de memórias Viver para contar, García Márquez explica que O amor nos tempos do cólera é baseado na história real de amor de seus pais. Que capacidade de contar histórias! Que inveja!
Alguns títulos do meu acervo têm carimbos de bibliotecas públicas. Sim, foram roubados. Espero que, assim como o ladrão que rouba ladrão, aquele que rouba livros também tenha cem anos de perdão. Na dúvida, às vezes faço doações, preferencialmente às bibliotecas das quais já peguei algum título emprestado por tempo indeterminado.
O escritor, tradutor, ensaísta e editor argentino Alberto Manguel conta que, na adolescência, conseguiu um emprego em uma livraria para “viver entre os livros”. Sua função era “limpar o pó de cada um dos livros da loja”. Entretanto, muitas obras o tentavam para além da limpeza.
“Umas poucas vezes roubei um livro tentador”, explicou em sua obra Uma história da leitura. “Certos livros [que roubava] queriam alguém que os segurasse, queriam ser abertos e inspecionados e, às vezes, nem isso era suficiente”, justifica.
Outros livros que constam em minha estante foram tomados emprestados de amigos, mas nunca devolvidos, porque não sei mais a quem pertenceram. Isso mesmo: pertenceram, no passado, pois agora me pertencem.
Chego à conclusão de que não possuo muitos livros. A estante é composta de sete prateleiras, medindo aproximadamente um metro de comprimento cada — todas lotadas. Pela descrição, parecem muitos, mas não são. Para alguns, talvez seja uma biblioteca; para mim, apenas o começo de uma busca infinita.
Ainda assim, não tenho tempo para devorar todos. Minha compulsão por tê-los me leva a comprar mais do que consigo ler, pois o objeto do meu desejo de leitura quase nunca está em minha estante, mas em algum sebo ou livraria, à minha espera.
Livros são caros, e não tenho dinheiro bastante para comprar tantos quanto gostaria. Mas sempre dou um jeito de adquirir novos exemplares — e até coleções completas.
Já foi pior. Houve uma época, quando eu era ainda mais desprovido do vil metal, em que passava dias inteiros nas livrarias, lendo prefácios, posfácios e orelhas. Quando encontrava algo especial, e só havia um exemplar, o escondia atrás de alguma fileira de livros, para que outros não o comprassem.
Quando conseguia alguns trocados, voltava à livraria. Ao ser atendido, dizia ao vendedor que queria justamente aquela obra. Ele digitava o título no computador e, em seguida, me explicava que, apesar de constar um no sistema, o livro estava em falta. Como quem não queria nada, simulando procurar outra obra qualquer, eu finalmente chegava ao local do crime. “Encontrei um”, dizia, fingindo surpresa.
Talvez, no fundo, eu continue escondendo livros como quem esconde pedaços de si mesmo — com medo de que alguém os leve antes que eu consiga compreendê-los.
RUBENS GONÇALVES
É jornalista em Palmas















