Cheguei em Goiânia há cinquenta e oito anos. Primeiro de fevereiro de 1968. Tinha dezoito anos e uma mala que cabia pouco mais que algumas roupas, muitos sonhos apertados e uma vontade imensa de vencer na vida. Seguia um roteiro já percorrido por muitos jovens da minha terra natal quando concluíam o curso ginasial e buscavam outras terras para continuação dos estudos. Muitos para Salvador, alguns para Belo Horizonte, outros para Brasília e muitos para Goiânia, capital de Goiás.
A cidade me recebeu com suas avenidas largas e ruas quase idênticas, em vista de ser uma cidade planejada. Percebia-se no ar a poeira vermelha advinda de bairros ainda sem asfalto e um futuro que eu ainda não sabia prever, mas já sentia que aqui era meu lugar.
Vínhamos do interior, meu primo Edmar e eu, sendo recebidos pelos primos Vi, Renato e prima Zildene, que já reservavam nossos lugares na república de estudantes onde residiam.
Eu, trazendo no corpo o ritmo mais lento das coisas do interior e, no coração, aquela fé silenciosa que não faz alarde, mas sustenta. Goiânia, então jovem como eu, parecia prometer caminhos e prometia sem garantias, apenas com a esperança de quem abre as portas e deixa o tempo trabalhar.
Os anos passaram sem pedir licença. Vieram os desafios, as quedas discretas, os recomeços teimosos. Vieram também os encontros decisivos, aqueles que mudam o rumo da estrada sem que a gente perceba na hora. A vida foi se fazendo no dia a dia, entre trabalho, responsabilidades e pequenas alegrias que só depois entendemos como grandes.
Hoje, ao olhar para trás, constato com reverência e surpresa que recebi muito mais do que um dia ousei imaginar. A cidade me deu raízes. A vida me concedeu uma família constituída e formada com amor, um lar onde o afeto mora no dia a dia, uma existência equilibrada, construída não de excessos, mas de sentido, oferecendo-me uma mulher guerreira e de espiritualidade superior, que como esposa nos trouxe dois filhos maravilhosos e uma filha encantadora. Era a continuidade do que aprendi no meu lar paterno.
Aprendi que vencer na vida não é chegar primeiro, nem acumular troféus visíveis. É chegar inteiro. É reconhecer-se grato. É poder repousar o coração sabendo que, apesar das imperfeições, a caminhada valeu a pena.
Goiânia deixou de ser apenas um lugar no mapa. Tornou-se parte da minha história, quase como um parente próximo, desses que conhecem nossos silêncios. E aquele jovem de dezoito anos, ainda que distante no tempo, continua aqui, sorrindo discreto, satisfeito por saber que seus sonhos foram acolhidos com generosidade. E com os anos aprendi que tudo isso é uma grande vitória.
“Quem tem ouvidos que ouça, quem tem olhos que veja!”
JOSÉ CÂNDIDO PÓVOA
É poeta, escritor e advogado; membro-fundador da Academia de Letras de Dianópolis.
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