O Huambo ainda chove dentro de mim.
Chove devagar, como na infância, quando a água descia mansa sobre os telhados da Caála e a terra vermelha devolvia ao mundo aquele perfume profundo de húmus, fruta madura e eternidade.
Os “loengos” e “lombulas” (frutas) amadureciam com a paciência das coisas antigas, enquanto minha mãe espalhava sobre as despedidas um suave “até breve”, como quem se recusava a acreditar na existência definitiva dos adeuses.
Eu não sabia, naquele tempo, que uma cidade pode continuar habitando um homem mesmo depois da distância, dos oceanos e das décadas.
Fundado em 1912, sobre o grande planalto central de Angola, o Huambo ensinou-me cedo o sentido da permanência. Havia os trilhos da ferrovia, os jardins molhados pela chuva fina, as promessas de colheita e uma dignidade silenciosa atravessando as ruas.
A cidade conheceu guerras, recomeços e cicatrizes, mas jamais perdeu a capacidade de florescer. O Huambo respirava como um corpo antigo: sofrido, resiliente e profundamente humano.
Hoje, porém, é em Palmas que abro a janela.
E o mundo já não chega em forma de névoa ou garoa. Aqui, a luz explode inteira sobre o cerrado. O sol parece ter escolhido esta cidade — fundada em 20 de maio de 1989, última capital planejada do século XX — para fazer dela um território de futuro e esperança.
As avenidas largas, o lago imenso, as palmeiras desenhadas contra o céu, as praças abertas como se quisessem abraçar o Tocantins inteiro: tudo em Palmas possui a ousadia das cidades que nasceram sonhando grande.
Há cidades que crescem lentamente sobre as ruínas do passado. Palmas nasceu quase ao contrário: primeiro veio o sonho; depois, a cidade.
Entre a Serra do Lajeado e o Lago de Palmas, aprendi outra forma de pertencimento.
Aqui, o cerrado tem cheiro de resistência. A poeira dourada das tardes, os ipês incendiando de cor o tempo seco, o calor subindo do asfalto recém-iluminado — tudo me ensinou que o futuro também pode criar raízes profundas.
E, ainda assim, quando o vento de maio anuncia chuva, o Huambo regressa.
Regressa inteiro.
No reflexo das águas do lago, revejo o planalto angolano. Nas noites quentes desta jovem capital brasileira, escuto às vezes o rumor distante das chuvas da minha infância.
É como se as duas cidades conversassem dentro de mim: uma oferecendo memória; a outra, horizonte.
Huambo foi o jardim onde aprendi a ouvir a terra respirando depois da chuva.
Palmas é a cidade onde aprendo, todos os dias, a continuar acreditando no amanhã.
Talvez por isso eu ame as duas com a mesma intensidade com que se ama aquilo que nos constrói. Porque ninguém abandona verdadeiramente a cidade onde foi menino; e ninguém deixa de amar a cidade que lhe devolveu futuro.
Entre Angola e Tocantins existe o Atlântico. Dentro de mim, porém, existe apenas uma ponte invisível feita de chuva, poeira, saudade e esperança.
Hoje, enquanto Palmas celebra mais um aniversário, deixo que as duas cidades caminhem juntas dentro do meu peito. O Huambo chega em forma de nuvem antiga; Palmas responde com suas avenidas iluminadas e o espelho azul do lago. E eu compreendo, enfim, que pertenço às duas.
Sou filho da chuva africana e da luz do cerrado.
Moro, para sempre, no encontro dessas águas.
Parabéns Palmas!
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.















