Educadora, escritora, poetisa e artista plástica, imortal da Academia Palmense de Letras, Iolete dos Santos Aguiar deixa um legado de cultura, ternura e compromisso com a memória de Palmas.
“Há vidas que não se apagam: apenas se recolhem para dentro da luz.”
A manhã amanheceu mais leve e mais triste.
Na porta da Academia Palmense de Letras do Tocantins , o vento parecia abrir espaço para o silêncio — aquele que fala quando as vozes cessam. Iolete dos Santos Aguiar partiu.
Mas o nome, a obra e o gesto ficaram.
Ficaram nas páginas que manteve vivas, nas cores que espalhou em tela, nos abraços tecidos em palavras, nas conversas que ainda ecoam pelos corredores da Academia.
Escritora, poetisa, educadora e artista plástica, Iolete foi uma mulher que conjugou docência e criação, ensinando a escutar o mundo com os olhos e o coração.
Antes de dedicar-se inteiramente à literatura e às artes, foi professora de Língua Portuguesa — profissão de raiz e de asas, que moldou seu olhar sensível e sua fé na palavra como ponte.
Transformava ensino em arte e arte em lição, porque em tudo via a possibilidade da beleza e da bondade. Em março de 2024, Palmas reconheceu oficialmente essa beleza.
Durante sessão solene da Câmara Municipal, Iolete foi homenageada ao lado de outros poetas e escritores, em agradecimento à sua contribuição cultural e à promoção da literatura na capital.
Também na Academia Palmense de Letras do Tocantins, era presença amorosa e firme: participava de projetos, reuniões, saraus e encontros como o “Pátio de Chile”, que aproximavam confrades e amigos em torno do verbo e da convivência. Sua produção literária é atravessada pela memória e pela ternura.
Em A Filha do Soldado, revisitou a infância e as raízes com emoção e coragem, fazendo da própria história matéria de literatura.
Mais tarde, nas narrativas de viagem lançadas em 2018, expandiu o olhar para o mundo, registrando paisagens, encontros e instantes de descoberta, sempre guiada pela atenção ao cotidiano e às pessoas.
Eu a conheci também pelo caminho da maternidade.
Fui professor de seu filho — hoje advogado — e nele vi o reflexo da ética, da sensibilidade e do respeito que herdou da mãe.
Há ensinamentos que não cabem em palavras: vivem no exemplo, na delicadeza, na forma de caminhar diante da vida. Agora, que o tempo se recolhe em saudade, resta o que a morte não alcança — o gesto, a lembrança, a presença sutil de quem fez da cultura um exercício de amor.
A Academia Palmense de Letras amanhece menor, mas guarda dentro de si uma centelha do que Iolete foi: símbolo de constância, ternura e fé na literatura. Como confrade, inclino-me diante de sua memória.
Como professor, agradeço à mulher que soube ver na palavra uma forma de educar e de iluminar.
E como amigo da poesia, prometo: sua voz continuará viva nas leituras, nas celebrações, nos gestos cotidianos de quem acredita que escrever é resistir ao esquecimento.
Que o luto se transforme em legado.
E que, entre nós, Iolete siga viva — como verso que ainda pulsa, como cor que ainda brilha, como presença que se renova a cada palavra que toca o coração.
Palmas, 14 março de 2026.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.















