Mais de um século depois, o tiro ainda ecoa no corredor estreito dos noticiários. E a manchete, quase sempre, permanece a mesma: “crime passional”. Como se a gramática pudesse absolver o gatilho, como se o Código Penal viesse adornado com uma flor de plástico na lapela.
Num país em que quatro mulheres são assassinadas por dia simplesmente por serem mulheres, a estatística tornou-se o outro nome do luto — um rosário de números que poucos ousam rezar em voz alta.
Lima Barreto já havia enxergado esse filme muito antes de o século aprender a fingir surpresa. O enredo era o mesmo: o noivo armado, a ex-noiva caída, a rua observando pelo buraco da fechadura, o juiz limpando as mãos na toalha da “honra ofendida”.
Ele escreveu como quem se coloca diante da bala, empunhando a única arma que lhe foi concedida — a palavra. Com ela tentou desarmar o seu tempo:
“Um ladrão é menos culpado que um assassino de adúltera”, anotou, antes de implorar que os homens largassem o revólver e aprendessem, enfim, a suportar a recusa.
Mas o século dobrou a esquina. O lampião virou LED, o bonde tornou-se aplicativo, a carta cedeu lugar ao story. E o mesmo dedo que antes puxava o gatilho agora desliza pela tela, colecionando notícias de feminicídio entre uma piada e um anúncio de perfume.
A cada “não sabemos o que aconteceu”, “ela provocou”, “ninguém conhece a intimidade do casal”, um pouco mais de pólvora se acumula na língua. E assim o idioma se torna cúmplice, assinando por baixo do disparo que jura apenas narrar.
“Deixem as mulheres amarem à vontade. Não as matem, pelo amor de Deus!” — a súplica atravessou o tempo como um telegrama perdido.
Chegou à nossa mesa de trabalho, ao feed do celular, à mesa de bar onde alguém ainda faz piada com o ciúme homicida.
O que fazemos com esse bilhete?
Dobramos em quatro e o guardamos na carteira, ao lado do RG, para apresentá-lo no próximo velório?
Ou o abrimos em praça pública, deixando que a sua tinta constranja delegacias, tribunais, redações, púlpitos, salas de aula, grupos de WhatsApp e almoços de domingo?
Há um país inteiro erguido sobre o direito tácito ao corpo das mulheres:
o direito de opinar sobre seus passos, vigiar seus gestos, corrigir sua roupa, seu desejo, sua voz; o direito absurdo de decidir se ela vive ou morre quando o “não” atravessa a fantasia de posse.
Esse país não é metáfora.
Ele tem CEP, perícia, boletim de ocorrência, laudos e sentenças que atenuam penas porque “ele era um bom pai”. Tem reportagens que chamam assassinato de “tragédia familiar”, como se a morte fosse apenas um acidente doméstico.
Talvez escrever seja apenas isto: insistir em colocar nomes onde o costume prefere eufemismos; recolher, de uma página antiga, um grito esquecido e devolvê-lo à calçada do presente — mais rouco, mais urgente.
Há quem diga que a literatura não muda o mundo.
Pode ser.Mas ela recusa, linha após linha, a naturalidade do massacre. Desmonta o álibi da paixão, desmente a pedagogia do ciúme — e, ao fazê-lo, abre uma fresta por onde a vida ainda pode escapar.
Enquanto a lei contabiliza, o mercado interpreta dados e o telejornal troca a vinheta, este prosema se ajoelha ao lado de Lima Barreto e repete, como quem tenta acordar um país sonâmbulo à beira do abismo:
deixem-nas chegar em casa,
deixem-nas terminar o namoro,
deixem-nas mudar de rumo,
deixar de amar, amar outra pessoa, amar a si mesmas.
Não as matem, pelo amor de Deus — e pelo pouco de humanidade que ainda desejamos salvar.
JOÃO PORTELINHA DA SILVA
É professor titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-doutorado pela Universidade de Coimbra.















